# O celeiro
> Se a IA produz mais depressa do que a empresa consegue conferir e absorver, o gargalo mudou de lugar, e o dono precisa ir medi-lo onde ele está.
Alex Mërović · 30 de setembro de 2026 · https://alexmerovic.com.br/blog/celeiro/
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Jean-François Millet, Medas de feno: outono, c. 1874. Óleo sobre tela. The Metropolitan Museum of Art, Nova York (Bequest of Lillian S. Timken, 1959). Domínio público (CC0), via Met Open Access.
## As medas de Millet {: #medas }
Por volta de 1874, Jean-François Millet pintou três medas de feno enormes num campo de restolho, sob um céu que escurece.[^1] Um pastor, pequeno, quase desaparece ao pé delas; as ovelhas pastam o que sobrou da ceifa; ao fundo, à direita, aparecem os telhados de uma fazenda. A safra do ano inteiro está ali, em três volumes, e só vale o que valer quando chegar seca ao inverno. O quadro mostra a colheita feita e deixa fora o celeiro que a vai proteger, que é justamente o que decide o valor do grão.
{: .abre }
Lembrei das medas ao ler o *Technology Trends Outlook 2026*, sexta edição do relatório anual da McKinsey, publicada em 15 de setembro e assinada por Michael Chui, Roger Roberts e Tanguy Catlin.[^2] São 14 tendências, de agentes de software a robôs, de chips a satélites, e dos cinco temas que os autores destacam fiquei com o que trata de avanços que chegam mais depressa do que a capacidade de absorvê-los. Os autores o condensam em duas frases, “A IA é o acelerador mais poderoso da história recente. Sua velocidade também é seu maior obstáculo”, e a segunda delas merece ser lida com vagar.
O relatório fala de laboratório, de fábrica e de subestação. A frase, porém, serve igualmente a quem dirige uma empresa de quinze ou de quinze mil pessoas, e é dessa versão que tratam as páginas seguintes.
## Três filas com o mesmo formato {: #filas }
Os exemplos que a McKinsey dá têm todos o mesmo desenho. Na indústria farmacêutica, a IA já propõe milhares de candidatos a remédio no tempo em que antes se gerava um punhado, mas não comprime os anos de bancada, de ensaio clínico e de revisão regulatória que vêm depois. Em ciência de materiais, os compostos promissores chegam mais rápido do que os laboratórios conseguem sintetizá-los e validá-los. No software, o texto diz que a IA está “produzindo código mais depressa do que os sistemas humanos conseguem revisar, testar e implantar com segurança”, e que os sistemas das empresas se enchem, por isso, de código frágil.
Eliyahu Goldratt deu nome a isso em *A Meta*, romance de 1984 passado numa fábrica: o rendimento de um sistema é o da sua etapa mais lenta, a restrição, e acelerar qualquer outra etapa apenas amontoa estoque diante da restrição.[^3] A ceifa ficou mais rápida; o celeiro continua com a porta do tamanho de sempre. O que o relatório descreve como “avanço” é, visto da empresa, estoque de coisa feita e ainda não conferida, e estoque parado custa dinheiro mesmo quando ninguém o põe na contabilidade. Custa, e muito.
## O código que alguém precisa ler {: #codigo }
Escrevi na página Sobre deste site que construo com IA e mantenho a responsabilidade humana sobre dados, testes e decisões. Lida ao lado do relatório, a frase descreve um celeiro: o que a máquina escreve em minutos, alguém precisa conferir contra um critério de aceite, e esse alguém tem o ritmo de uma pessoa, com agenda, com fadiga e com outras reuniões.
Dentro de uma empresa média, o estoque aparece com outros nomes. São as automações que o agente montou e que ninguém abriu para ler, as respostas de atendimento redigidas em lote e nunca amostradas, as variações de campanha que subiram sem ninguém perguntar qual delas responde à pergunta certa. A produção cresceu por um fator grande e a conferência ficou onde estava, de sorte que a razão entre o que foi feito e o que foi visto aumenta a cada semana, sem alarme, porque nada quebra enquanto a fila não cai sobre alguém. Ninguém avisa.
Quem é o revisor? Se a resposta, numa empresa pequena, for o próprio dono, a fila anda à velocidade da agenda dele, e a assinatura da IA, por mais barata que seja, já não governa o custo: quem o governa é a atenção de uma pessoa, a mais escassa e a menos medida de todas.
Duas medidas bastam para começar, e ambas saem de uma planilha simples. A primeira é o tamanho da fila: quantos itens produzidos por máquina aguardam conferência humana. A segunda é a idade do item mais velho, porque uma fila de cem itens com dois dias é rotina, e uma fila de vinte com dois meses é um acidente à espera de data. Com as duas à vista, vale a regra que a manufatura já aprendeu, a de limitar o trabalho em andamento: quando a fila passa do teto, a máquina para de produzir até que alguém a esvazie.
## A rede que não acompanha {: #rede }
A parte mais concreta do relatório trata de energia. A corrida por escala de IA, dizem os autores, esbarrou numa restrição que nenhuma engenhosidade dos grandes provedores resolve por inteiro, a potência elétrica, e o trecho central merece ser lido devagar: “Data centers podem ser construídos mais depressa do que as linhas de transmissão, as subestações e os transformadores necessários para alimentá-los podem ser fornecidos.” Segundo o texto, os transformadores têm em muitos mercados prazo de entrega superior a dois anos, e mais de 2.500 gigawatts de projetos de energia esperam, parados, em filas de conexão no mundo inteiro.
As filas de conexão têm a mesma estrutura da fila de revisão: alguém construiu depressa a parte que dá prestígio e deixou sem dono a parte que liga uma coisa à outra. A McKinsey acrescenta que garantir potência de computação confiável passou a valer, para as empresas, tanto quanto garantir talento ou capital, e a consequência para quem gere um negócio menor é uma pergunta: onde está o meu transformador?
Numa empresa comum, o transformador recebe outros nomes. Pode ser o fornecedor que leva três semanas para liberar um acesso, o jurídico que lê contrato às quintas, a única pessoa que conhece sozinha um sistema. Em qualquer dos casos, o investimento em mais capacidade de produção se perde enquanto a etapa seguinte permanece do mesmo tamanho. Quem vai medi-la? O dono, porque cada diretoria tende a medir a sua e a aceitar a fila do vizinho como se fosse clima.
## Produzido, conferido, em uso {: #medir }
O relatório projeta, a partir do primeiro semestre de 2026, que cinco das 14 tendências recebam mais do que o dobro do investimento de 2025, entre elas o desenvolvimento de software por agentes. Se a projeção se confirmar, a ceifa vai acelerar ainda mais, e a fila diante do celeiro crescerá na mesma proporção, a menos que alguém a meça e decida alargar a porta.
O mercado de trabalho já insinua onde está a escassez. Segundo os autores, em conectividade, cibersegurança, energia, ciências da vida e mobilidade, mais da metade das vagas anunciadas eram de funções alheias à pesquisa, como operações, vendas e administração, sinal de que a tecnologia saiu do laboratório e está sendo implantada. Nas quatro tendências ligadas à IA e nos semicondutores específicos, mais de 75% das vagas eram de pesquisa e desenvolvimento. Contrata-se, portanto, quem faz a máquina, muito mais do que quem a recebe na operação, e as empresas que usam IA herdam essa distância sem que nenhum fornecedor a feche por elas.
Escrevi em [Dois relógios](https://alexmerovic.com.br/blog/dois-relogios/) que uma safra com trinta dias de vida está censurada, que ainda não disse o que vale, e que quem a julga cedo premia o que é rápido e pune o que é profundo. A produção de uma IA sofre do mesmo vício de calendário. Um painel que conta o que foi gerado ao fim do dia registra a foice, e quem decide com ele vai sempre achar que a empresa cresce; só o dado de quanto foi conferido, quanto entrou em produção e quanto está em uso informa onde o grão realmente chegou.
Proponho três colunas para qualquer trabalho que passe por máquina: produzido, conferido, em uso. A primeira mede a capacidade de ceifar, a segunda a capacidade de revisar e a terceira a de receber, e a decisão de investimento se faz olhando a menor das três, porque só ela diz onde o dinheiro vai render. Uma empresa pode descobrir, nessa tabela simples, que comprou ceifeiros em excesso e que lhe faltam revisores. A máquina funciona e fica; a correção mais barata está em contratar ou treinar quem confere, em fixar os critérios de aceite antes da produção e em desenhar a porta do celeiro no mesmo dia em que se compra a foice.
## O celeiro {: #celeiro }
As medas de Millet me interessam pelo que o quadro deixa em aberto. O trabalho está pronto e o céu está fechando, e o que as salvará é um celeiro que a moldura não mostra, como ficam além dos painéis de gestão as etapas em que o valor de fato se realiza. Um dono de empresa tem de ir até lá, aonde a pintura não o leva.
Do que a sua empresa produziu esta semana com ajuda de máquina, quanto já entrou no celeiro?
{: .fim }
[^1]: MILLET, Jean-François. *Medas de feno: outono* (*Haystacks: Autumn*), c. 1874. Óleo sobre tela. The Metropolitan Museum of Art, Nova York, Bequest of Lillian S. Timken, 1959, nº 60.71.12, objeto 437097. . A descrição da cena é minha, feita a partir da imagem.
[^2]: CHUI, Michael; ROBERTS, Roger; CATLIN, Tanguy. *McKinsey Technology Trends Outlook 2026*. McKinsey & Company, 15 de setembro de 2026, acesso em 30 de setembro de 2026. . Todas as citações do relatório neste ensaio são traduções minhas do inglês, assim como os números (2.500 GW, dois anos, cinco das 14 tendências).
[^3]: GOLDRATT, Eliyahu M.; COX, Jeff. *A Meta* (*The Goal*). Publicado originalmente em 1984. A Teoria das Restrições, que o romance apresenta, sustenta que o rendimento de um sistema é limitado por sua restrição.
**Fonte:** Michael Chui, Roger Roberts e Tanguy Catlin, [“McKinsey Technology Trends Outlook 2026”](https://www.mckinsey.com/capabilities/tech-and-ai/our-insights/the-top-trends-in-tech), *McKinsey & Company*, 15 de setembro de 2026, acesso em 30 de setembro de 2026.