# Cenário descartável > Se o agente desenha a interface na hora e a joga fora depois, o que resta à empresa é o dado, o processo e a responsabilidade. Alex Mërović · 30 de setembro de 2026 · https://alexmerovic.com.br/blog/cenario-descartavel/ ---
Gravura colorida em tons de sépia e amarelo: um palco em perspectiva, com colunas altas nos dois lados e grandes nuvens que se abrem como um túnel até um palácio distante, sob um foco de luz dourada; figuras dançam em primeiro plano.
Israel Silvestre, cenário de Giacomo Torelli para o ballet Les Noces de Thétis, 1654. Água-forte com aquarela. The Metropolitan Museum of Art, Nova York. Domínio público (CC0), via Met Open Access.

“O que está acontecendo com os agentes é que a capacidade de fazer coisas está ficando abundante; o que é escasso é a vontade.”

Ben Thompson, Apps, Agents, and Aggregation, Stratechery, 28 de setembro de 2026
## O cenário que muda num gesto {: #cenario } Em Paris, em 1654, o cenógrafo Giacomo Torelli trocava o palco inteiro diante da plateia, e bastava um homem debaixo do tablado para girar o tambor que puxava todas as peças de uma vez.[^1] A plateia via colunas cederem lugar a nuvens; quem trabalhava no teatro sabia que o espetáculo estava no mecanismo, que o cenário nascera para ser trocado, e que bilheteria, elenco e livro-caixa continuavam onde sempre estiveram. {: .abre } Lembrei de Torelli ao ler, no dia 28, o ensaio em que Ben Thompson, do Stratechery, sustenta que o agente de IA com acesso a um computador vai substituir a interface de aplicativo.[^2] A pessoa deixa de aprender os botões de uma ferramenta e diz o que quer; o agente, numa máquina que é dele, monta a tela necessária e a desfaz em seguida. A Meta, conta Thompson, já reserva para cada usuário americano uma máquina virtual de dois núcleos, 8 GB de memória e 8 GB de armazenamento, e a Microsoft faz o equivalente na empresa. Daí sai a tese econômica: os agregadores resolveram a descoberta, a escassez agora é de inspiração, e quem dominar o agente será “o porteiro definitivo não só da demanda do usuário, mas do desejo”. Concordo com o diagnóstico da interface e discordo do que se costuma tirar dele. Pode-se trocar o cenário a cada cena, e a plateia nem percebe, contanto que o teatro continue tendo dono. ## Onde a tese vale {: #vale } Para o consumidor, acho que ela vale inteira. O agente que compara orçamentos, preenche o formulário e faz a reserva tira da pessoa a dificuldade de fazer, e sobra a de querer, que é justamente o terreno em que a propaganda sempre trabalhou. No Brasil a conversa soa mais próxima do que no Vale do Silício, porque o aplicativo já perdeu para a janela de mensagem faz tempo: nas operações comerciais que acompanhei, o cliente resolve dúvida, agendamento e pagamento dentro do WhatsApp, e quem constrói atendimento aqui desenha para a caixa de texto antes de desenhar a tela. Um efeito merece nome desde já. Quem compra mídia vai descobrir que anunciar para a pessoa e anunciar para o agente da pessoa são ofícios diferentes, e eu ainda não sei dizer como se mede o segundo. Prefiro declarar isso a inventar uma cifra. ## Onde a tese para na porta da empresa {: #empresa } Numa empresa, vontade é o que sobra: a meta vem do planejamento, a pauta vem da semana, a tarefa vem da fila. O que escasseia é alguém que confira se o número em que a ordem se apoia mede o que o nome diz, e alguém que assine pelo resultado. O agente resolve o fazer, e o resolve sem cansaço, o que é precisamente o risco. Contei em [O preço de tudo](https://alexmerovic.com.br/blog/o-preco-de-tudo/) como o lead mais barato da conta era o que menos virava receita, e como o otimizador da plataforma cumpriu com perfeição uma pergunta que ninguém deveria ter feito. Um agente com computador próprio é esse otimizador com mãos, que não para diante do painel para estranhá-lo, porque, para ele, o painel é meio e nunca o objeto da dúvida. A tela, além de instrumento, era o lugar onde alguém olhava. Escrevi em [Dois relógios](https://alexmerovic.com.br/blog/dois-relogios/) que o painel é o olho do dirigente nos lugares aonde ele não vai, e um olho refeito a cada pergunta não permite comparar o que se viu hoje com o que se viu ontem. Um mês de julho que valia um número em 17 de agosto valia 25,3% a mais em 2 de setembro, e as duas leituras estavam certas, cada uma no seu relógio. Se alguém perguntar a um agente como foi julho, ele responderá depressa, com uma tela limpa, em algum dos dois relógios, sem dizer qual. O campo de origem do cliente, preenchido em 4,14% dos cadastros naquela operação, mostra o limite do outro lado: nenhum agente recupera o que ninguém anotou na porta. Não digo que agente não sirva para desconfiar; digo que desconfiar exige saber o que se esperava encontrar, e isso alguém precisa ter escrito antes. ## O que sobra quando a cena troca {: #sobra } Se a interface é descartável, a empresa possui o que está debaixo dela: o registro, a regra e o nome de quem responde. Para quem constrói sistema interno, e especifico alguns, a consequência é incômoda, porque boa parte do valor de um CRM ou de uma central de atendimento morava na tela, no fluxo bem desenhado e no botão no lugar certo. Com agente operando, a tela deixa de ser disputada e a disputa passa ao que o agente consegue ler e escrever sem estragar nada: campo obrigatório de valores fechados no lugar do texto livre, identificador guardado no instante em que aparece, histórico que ninguém edita depois, permissão por papel, registro de quem mudou o quê. Nenhuma dessas coisas aparece numa demonstração, e todas estarão à espera do agente no dia em que ele entrar. O contrato de cinco campos que propus em Dois relógios, com definição operacional, fonte primária, relógio, maturidade e dono, foi escrito para a diretoria. Percebo agora que ele serve melhor a um leitor sem tempo de desconfiar. O agente que recebe o número junto com o contrato sabe em que relógio está, quando o dado amadurece e a quem perguntar; o que recebe só o número responde como o painel respondia, limpo e com duas casas decimais. O agente pode trocar a tela a cada pergunta, contanto que o registro não troque de dono. {: .destaca } ## O barqueiro {: #barqueiro }
Gravura em preto e branco: um barqueiro de torso nu apoia-se num longo remo sobre uma barca; uma jovem de túnica, com uma taça na mão, está a seu lado; em primeiro plano à esquerda, um velho ajoelhado estende a mão pedindo esmola; ao fundo, um homem conduz um burro carregado. Versos em italiano correm sob a imagem.
Mestre do Dado, Psiquê parte na barca de Caronte, ignorando o velho que pede esmola, prancha 25 de A história de Cupido e Psiquê segundo Apuleio, 1530–60. Gravura. The Metropolitan Museum of Art, Nova York. Domínio público (CC0), via Met Open Access.
Na gravura da Psiquê, Caronte recolhe a moeda da travessia sem que ninguém discuta o preço, porque há uma só barca e a outra margem é o destino. Penso nele quando Thompson chama o agente de porteiro do desejo. Os agregadores cobraram dos fornecedores pela descoberta, e os agentes cobrarão pela vontade, de modo que a empresa de serviços será, ao mesmo tempo, cliente do agente que opera a sua casa e fornecedora do agente que escolhe por seus clientes, pagando para ser escolhida e pagando para funcionar. Thompson prevê ainda que “a maioria das pessoas e empresas terá apenas um agente, não vários”. Como previsão de mercado me parece razoável; como decisão de empresa, é o arranjo que eu menos recomendaria. Em [Sobre a areia](https://alexmerovic.com.br/blog/sobre-a-areia/), o inventário de uma operação listou 45 sistemas, nenhum com a senha num cofre da empresa, e uma conta de anúncios com histórico valioso registrada no nome de quem já tinha ido embora; o *bus factor* da empresa era um. Um agente único, hospedado por outra companhia, que lê o e-mail, opera o CRM e responde no WhatsApp, reproduz essa estrutura com a vantagem de ser muito mais eficiente. A memória da operação, o que foi dito aos clientes, o que foi prometido e como se decidiu, passa a morar numa máquina que a empresa não controla, sob um contrato que pode mudar de preço, de regra ou de dono. Há ainda um agravante, e este é de lei. A Lei Geral de Proteção de Dados mantém o dado do cliente sob responsabilidade da empresa, que é a controladora, ainda que quem o processe seja a máquina de outra;[^3] o jurídico deveria ler isso antes do contrato, e não depois do entusiasmo. ## O arrendatário {: #arrendatario }
Pintura: um homem de casaca escura, sentado à mesa coberta de veludo vermelho, escreve com uma pena e ergue o olhar para a mulher de vestido branco que se apoia no seu ombro e olha de frente; sobre a mesa e no chão, frascos, tubos e balões de vidro de laboratório.
Jacques-Louis David, Antoine Laurent Lavoisier e Marie Anne Lavoisier, 1788. The Metropolitan Museum of Art, Nova York. Domínio público (CC0), via Met Open Access.
David pintou Lavoisier entre os instrumentos de laboratório, e o quadro não conta que aos 26 anos ele comprara uma cota da Ferme Générale, a companhia privada que adiantava ao rei a receita estimada dos impostos em troca do direito de cobrá-los.[^4] Em 8 de maio de 1794 foi guilhotinado com os demais arrendatários; um ano e meio depois o governo o declarou injustamente condenado. Não afirmo paralelo histórico nenhum, e uso a imagem apenas por uma razão: um intermediário útil, bem pago e instalado entre o dono de uma função e o resultado dela é figura antiga, e quem a contrata costuma descobrir o preço quando o acordo muda. Minha recomendação cabe na certidão de propriedade digital que propus em Sobre a areia: uma linha nova por agente. Em nome de quem está a conta dele. Onde vive a memória, e se o que ele aprendeu sobre a operação, as conversas e os arquivos que gerou podem ser exportados e reimportados em outro. O que quebra se ele sumir, e quanto tempo outro levaria para assumir. Três regras saem dessa linha. O registro oficial, no CRM, no banco de dados ou no contrato, fica em sistema da empresa, e o agente escreve nele por permissão que se possa revogar. Nenhum agente é o único a saber uma coisa. E trocar de agente deve ser um exercício que a empresa já tenha feito uma vez, porque plano de saída que nunca foi ensaiado é apenas esperança. Thompson tem razão em que ganhará quem tiver a distribuição. À empresa cabe só garantir que a distribuição dos outros não vire o seu chão. ## O palco {: #palco } Quando o cenário trocar, e vai trocar, a plateia nem notará. O agente fará a tela do dia, a tela de amanhã será outra, e quase ninguém sentirá falta da antiga. Sobrarão as perguntas que já valiam antes dele, feitas agora do lado do palco onde fica o registro: se o histórico, a regra e o nome de quem assina continuam sendo da empresa no dia em que a interface for outra. De quem é o palco? {: .fim } [^1]: Sobre o sistema de carrinhos e varas de Torelli, em que carrinhos sob o palco, ligados por cordas a um tambor central, deslocavam várias peças do cenário ao mesmo tempo, movidos por um único ajudante: verbete "Giacomo Torelli", Wikipedia. O ballet *Les Noces de Thétis* foi encenado em Paris em 1654. A gravura que abre o ensaio é de Israel Silvestre, conservada no Metropolitan Museum of Art (Elisha Whittelsey Collection, objeto 700415). [^2]: THOMPSON, Ben. "Apps, Agents, and Aggregation". *Stratechery*, 28 de setembro de 2026. . Todas as citações de Thompson neste ensaio são traduções minhas do inglês. [^3]: Lei nº 13.709/2018 (LGPD), art. 5º, VI e VII (definição de controlador e de operador), e art. 42 (responsabilidade e ressarcimento de danos). [^4]: Verbete "Antoine Lavoisier", Wikipedia. A data da execução é 8 de maio de 1794; a reabilitação veio cerca de um ano e meio depois. **Fonte:** Ben Thompson, [“Apps, Agents, and Aggregation”](https://stratechery.com/2026/apps-agents-and-aggregation/), *Stratechery*, 28 de setembro de 2026.