# O dragomano > O marketing de produto traduz o mercado para dentro da empresa e o produto para fora, e um ofício assim só funciona com assento, interlocutor e um nome que os outros entendam. Alex Mërović · 7 de outubro de 2026 · https://alexmerovic.com.br/blog/o-dragomano/ ---
Aquarela em tons de areia e ocre: numa sala de parede manchada, com uma prateleira de jarros à esquerda e uma mesinha com garrafas e pães à direita, uma jovem de traje de festa, com diadema verde, colar de contas vermelhas e brincos longos, está sentada e olha de frente; atrás dela, uma mulher de lenço amarelo se inclina e apoia a mão no seu ombro.
Eugène Delacroix, Saada, mulher de Abraham Ben-Chimol, e Préciada, uma de suas filhas, 1832. Aquarela sobre grafite. The Metropolitan Museum of Art, Nova York. Domínio público (CC0), via Met Open Access.
## O retrato que sobrou {: #retrato } Em 1832, Delacroix viajou ao Marrocos com a missão que o conde de Mornay levava ao sultão, e entre as peças da delegação estava um intérprete, o dragomano Abraham Ben-Chimol, judeu de Tânger. O catálogo do Metropolitan conta que foi ele quem apresentou os franceses à mulher e à filha.[^1] Delacroix fez o que sabia fazer e pintou as duas num interior, a filha sentada, de trajes de noiva, e a mãe inclinada atrás dela, e escreveu no diário sobre um casamento judeu a que assistiu na cidade. Do intérprete, que fazia a delegação ser entendida, a aquarela guarda o nome no título e mais nada. {: .abre } Lembrei do quadro ao ler um texto curto de Jasmine Jaume, que em 2021 contava cinco anos de Intercom, sobre o que faz o marketing de produto funcionar ali.[^2] Ela abre com um número que poderia servir de legenda à aquarela: segundo o texto, apenas 4% dos profissionais da área acham que as outras equipes da empresa entendem por completo o que eles fazem. ## As duas línguas {: #linguas } A missão da equipe, nas palavras dela, é “dar vida à voz do mercado dentro da empresa e à voz do produto fora dela”, e o que vem depois dessa frase é uma lista de quatro territórios: conhecer os clientes e a concorrência, influenciar a estratégia e o roadmap junto com o time de produto, definir posicionamento e mensagem, e desenhar a estratégia de lançamento com vendas e marketing. A empresa chama o modelo de full-stack, porque o envolvimento começa com o desenvolvimento do produto e segue até o lançamento e depois dele. Um dragomano sabe que traduzir exige escolher, e que a frase fiel às palavras pode trair a intenção. O marketing de produto, nessa leitura, faz o mesmo nos dois sentidos: leva para dentro o que o cliente disse e não sabia dizer, e leva para fora o que o produto faz e ninguém soube explicar. O texto de Jaume não usa essa comparação, e ela é minha, mas o desenho que ele descreve só se entende por ela, pois a função de um mensageiro que serve a dois senhores é diferente da de um vendedor que serve a um. Jaume nota uma tendência: cada vez mais startups contratam um profissional de marketing de produto como primeiro marketeiro, por enxergarem o valor de acertar posicionamento e encaixe com o mercado desde o começo. Numa empresa pequena, a voz do mercado chega inteira e em pedaços, e cada pedaço mora com quem o ouviu. O comercial guarda as objeções, o atendimento guarda as queixas, o marketing vê as buscas e o custo de cada clique, o produto vê o que a equipe consegue construir. Ninguém tem as quatro peças, e ninguém é pago para juntá-las. Contei em [O preço de tudo](https://alexmerovic.com.br/blog/o-preco-de-tudo/) que o cruzamento de dois relatórios era banal e quase ninguém o fazia, porque os relatórios moravam em sistemas diferentes e respondiam a pessoas diferentes; o dragomano é quem faz esse cruzamento por ofício, e não por favor. ## Assento e espelho {: #assento } A Intercom, diz Jaume, contratou profissionais de marketing de produto entre os seus primeiros marketeiros e tem, desde cedo, “um assento à mesa”. O texto insiste em que o ofício não se limita a lançamentos, e dá a razão em termos de calendário: a equipe entra no começo do desenvolvimento e volta depois do lançamento para cuidar da adoção. Um assento à mesa, nessa descrição, é antes de tudo um horário: o intérprete só serve se estiver na sala quando o assunto ainda pode mudar. Há um segundo dado de desenho. A estrutura da equipe espelha a de gerência de produto, e cada profissional de marketing de produto cuida de uma parte ou segmento e trabalha com dois ou três gerentes desse território. O texto atribui a isso relações próximas e conhecimento profundo de domínio, e eu acrescento o que me parece a razão: quem serve a dois senhores precisa conhecer bem um território de cada vez, porque um intérprete de tudo não domina nenhum dialeto. É um desenho que exige gente, e a própria Jaume diz que a equipe foi ampliada com cuidado ao longo dos anos; uma empresa menor dificilmente o reproduziria inteiro. ## O balcão de lançamentos {: #balcao } O risco que o texto admite é o de o ofício virar balcão de lançamentos. Jaume reconhece que, num lugar de produto forte, com uma engenharia que entrega rápido e com frequência, é difícil não gastar o tempo todo em lançar, e conta que a Intercom equilibra esse trabalho com atividades de outra natureza, como estratégia de entrada no mercado, posicionamento aprofundado e conselhos consultivos de clientes. A razão que ela dá é a satisfação de quem trabalha, pois a maioria não quer passar os dias num só tipo de tarefa. Acrescento que a fila de lançamentos é a forma mais cômoda de ocupar um intérprete, porque sempre há um próximo, com data marcada, ao passo que traduzir o mercado para dentro da estratégia não tem prazo que o cobre. Quem mede a função pelo número de lançamentos acaba pagando o intérprete para copiar, e não para traduzir. ## Do texto à habilitação {: #habilitacao } O trecho que mais me interessou é de Christine Sotelo, citada no texto. Há alguns anos, conta ela, o marketing de produto não só montava os lançamentos como escrevia as postagens e enviava os e-mails. Agora há um marketing robusto, que enxerga cada lançamento como degrau de uma narrativa maior, e o marketing de produto o habilita com posicionamento, mensagem e parte da estratégia de lançamento, “deixando os donos desses canais e funções fazerem a sua mágica, já que são os especialistas”. A passagem descreve uma maturidade que me parece difícil de alcançar: o intérprete que deixa de redigir o tratado. No início, imagino, quem traduz também escreve, porque não há mais ninguém; conforme a casa cresce, o valor do ofício passa a medir-se pelo que os outros conseguem fazer com o que ele entrega. O dono do canal sabe o que funciona no canal, e o dragomano que insiste em escrever tudo vira, mais cedo ou mais tarde, o gargalo da própria tradução. Jaume menciona ainda um custo de carreira. Muitos marketeiros ambiciosos só veem saída na gerência, e a Intercom diz abrir caminho também para quem prefere seguir como contribuidor individual até um cargo de principal. Suponho que a razão seja prática: bom intérprete leva anos para se formar, e a empresa que só promove quem deixa de traduzir acaba com os tradutores. ## Quem traduz na sua casa {: #casa } Uma empresa sem marketing de produto pode ter o trabalho sem ter o nome. Alguém faz o cruzamento de vez em quando, talvez o mais curioso, e a empresa o trata como hobby. Proponho dar ao ofício uma forma antes de lhe dar um cargo: uma pessoa por área de produto fica responsável por uma página mensal, com as cinco objeções que mais apareceram, quem as ouviu, o que o cliente tentou fazer quando falhou, e a decisão de produto que teria evitado o problema. Essa pessoa participa da conversa do roadmap desde o começo, e a página entra na pauta como entra o orçamento. O número de Jaume, os 4%, serve de aviso. Uma função que ninguém entende corre o risco de ser cortada na primeira revisão de custos, e o remédio é tornar visível o que ela entrega: a objeção que virou mudança, o lançamento que não precisou de explicação, a pergunta que o atendimento deixou de receber. No título da aquarela, Abraham Ben-Chimol consta como marido de Saada. É onde a história guarda quem traduziu, e é pouco para quem deu ao pintor a entrada numa casa. A pergunta que me ocorre, de volta à empresa, é simples: quem traduz na sua, e em que lugar do quadro ele aparece? {: .fim } [^1]: Catálogo do Metropolitan Museum of Art (objeto 336046), conforme reproduzido no registro do acervo: Delacroix acompanhou o conde de Mornay, enviado como embaixador de boa vontade ao sultão do Marrocos, Abd-er-Rahman II; o dragomano designado para a delegação era o intérprete judeu Abraham Ben-Chimol (Benchimol), de Tânger, que apresentou os franceses à mulher e à filha; Delacroix descreveu em seu diário um casamento judeu a que assistiu em Tânger em 21 de fevereiro de 1832. Dragomano é o intérprete oficial de missões diplomáticas e comerciais no Oriente. [^2]: JAUME, Jasmine. "Keeping the market in mind: What makes product marketing successful at Intercom?". *Intercom Blog*, 1º de setembro de 2021. Todas as citações desse texto neste ensaio são traduções minhas do inglês. **Fonte:** Jasmine Jaume, [“Keeping the market in mind: What makes product marketing successful at Intercom?”](https://www.intercom.com/blog/product-marketing-at-intercom/), *Intercom Blog*, 1º de setembro de 2021.