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DADOS MEUS · AUTOMAÇÃO

A fila e a comporta

Diante de 1.370 leads e de um sistema capaz de mandar tudo sozinho, uma clínica de SP, do nicho de estética, automatizou quem escreve a quem e deixou uma pessoa abrindo a comporta.

Temas: automação de vendas · IA nas empresas · agentes de IA

Ler com IA
Claude ChatGPT
Pintura de paisagem: uma vaca de pelagem castanha, de pé na água de um canal, ergue a cabeça com a boca aberta; à esquerda, uma comporta de madeira sobre o canal; ao fundo, outras vacas num campo verde com flores brancas, sob um céu carregado de nuvens escuras.
Émile van Marcke, A comporta, s.d. Óleo sobre tela. The Metropolitan Museum of Art, Nova York (Bequest of Susan P. Colgate, in memory of her husband, Romulus R. Colgate, 1936). Domínio público (CC0), via Met Open Access.

A pergunta errada

Em 9 de setembro de 2026 eu tinha uma fila de 1.370 leads parados e um sistema capaz de escrever a todos eles sozinho, e fiz a pergunta que qualquer pessoa faria nessa posição: como automatizar o envio? A pergunta carregava uma premissa que só a leitura do código veio examinar, a de que o envio fosse a parte trabalhosa do problema.

O CRM da clínica de SP, do nicho de estética, já tinha um motor de follow-up em produção, com 888 execuções e 1.498 mensagens enviadas, teto diário, horário comercial, trava de turno e um interruptor geral. Era um motor com freios. Dois agentes de IA leram o código do CRM para responder à minha pergunta, e a resposta mudou o plano. A conversa em que isso se decidiu durou 4h24 e teve 41 turnos meus.

O motor, descobriram eles, recusa de propósito mandar mensagem a quem está esperando uma resposta nossa. Quem espera tem uma dívida de atendimento a receber, e dívida dessa espécie não se paga com automação. O código fazia, ainda, outra coisa, que dizia mais sobre quem o escreveu: limitava a 10 os destinos de um encaminhamento em massa e chamava o contrário disso de “a receita conhecida de banimento”.

Quem vai para onde

Entre as opções que o veredito deixou, escolhi a terceira, a de automatizar a fila e mandar à mão. A fila ganhou uma Fila do Dia, com a mensagem de cada lead já pronta, o link e um aviso quando o lead estava marcado como lixo no CRM, e o envio ficou com a atendente, que o fazia à mão pela caixa de entrada. O aviso de lead marcado como lixo tinha motivo nos números: dos 1.366 leads que consegui casar com o CRM, 875, ou 64%, estavam assim marcados, e entre os que tinham perguntado sem resposta, a leitura de agentes de IA atribuiu à clínica a falta de 77 deles. Quem manda à mão pode olhar o aviso antes de escrever; a máquina que enviasse sozinha não teria quem o lesse.

A divisão final saiu depois, e é a parte do raciocínio que mais me interessa. Separei 853 leads para a automação, os de blocos frios, a quem um texto genérico podia servir, e 359 para o envio manual, os de blocos que pediam texto próprio, e que eram justamente os da dívida de atendimento. Os dois números derivam das contagens dos blocos, e a soma deles, 1.212, fica abaixo dos 1.370 da fila inicial; não tenho, neste texto, a lista do que ficou de fora. A cadência aprovada foi de 65 mensagens por dia, ou 2.203 mensagens em cerca de 34 dias úteis.

Havia ainda uma regra de conflito: a campanha pula quem já tem follow-up ativo. O cruzamento com a produção mostrou por que ela era necessária. Contavam-se 227 execuções vivas, todas numa só etapa do funil; 218 dos 1.370 leads já tinham uma delas; e o follow-up normal já trabalhava 134 dos 314 leads de um dos blocos. Ligar a campanha sem a regra teria posto duas máquinas a falar com a mesma pessoa.

O que a máquina escreveu

Automatizar a fila significava também deixar que a máquina escrevesse a abertura de cada conversa, e escrever é onde a máquina erra sem avisar. Antes de publicar a Fila do Dia, auditei os próprios artefatos, e a auditoria barrou defeitos que um leitor externo veria no primeiro minuto: 356 de 971 ganchos estavam sem acento, 51 ganchos inventavam uma oferta, um deles trazia um preço de boleto inventado e duas ofertas já estavam vencidas. Essas são contagens da auditoria.

Cada um desses defeitos, mandado a um lead por um motor sem pessoa nenhuma no meio, seria uma mensagem a mais na dívida, e uma mensagem errada a quem esperou pela resposta certa me pareceu pesar mais do que o silêncio. A pessoa à frente da caixa de entrada passava a cumprir, por isso, uma função que nenhuma das duas máquinas, a que escreve e a que envia, tinha como cumprir sozinha: ler o texto antes de ele ir.

A comporta

Émile van Marcke pintou uma vaca de pé na água de um canal, e atrás dela, à esquerda, uma comporta de madeira.1 Uma comporta regula quanto de água passa por um canal, e costuma haver alguém encarregado de abri-la e de fechá-la. Quem a automatizasse inteira ganharia tempo em todos os dias comuns e perderia a safra no dia da enchente.

Lisanne Bainbridge escreveu em 1983 um artigo famoso sobre as ironias da automação: o projetista tenta eliminar o operador e ainda assim o deixa com as tarefas que não soube como automatizar.2 No caso da clínica, a ironia vinha ao contrário. Quando os agentes leram o código do motor, o que ele reservava a uma pessoa era aquilo em que ele mesmo se recusara a tocar, e a recusa traçava a linha onde ela precisava estar.

A fila, portanto, ficou com a máquina: quem escreve a quem, em que ordem, com que cadência e com que aviso. A comporta ficou com a pessoa: o clique que fala a quem está esperando.

O que o código não sabia

A leitura trouxe ainda duas informações que convém registrar como informação: o módulo de workflows do CRM é código morto em produção, sem rota que o dispare, sem cron e sem botão; e a trava de turno, que protege quem aguarda resposta humana, vive só dentro do follow-up e não vale para a IA nem para o workflow. O documento da época chama isso de bug em produção. É leitura do código, da qual se conclui que a IA automática poderia estar escrevendo a quem espera uma pessoa, e não medi nenhuma ocorrência. Fica uma inferência.

O que declaro

O resultado é declarado por mim, e não foi auditado neste texto. A automação da fila rodou, com uma oferta feita para a base, e teve taxa de retorno de cerca de 35% e conversão de cerca de 2%. O desenho de 9 de setembro previa mensagens sem oferta, e o resultado declarado inclui uma proposta feita à base, de modo que os dois números medem a fila e a proposta juntas, e eu não sei separá-las.

Faltam, neste texto, outras duas respostas: quantos dos 359 leads manuais foram de fato enviados, e se a divisão em 853 e 359 se confirmou na execução. O documento que tenho termina no desenho, e o resultado declarado cobre a automação da fila. Um número de 2% de conversão, em qualquer base, só diz alguma coisa diante do que seria a conversão sem a fila, e para isso faltaria um grupo de comparação, que não existe aqui.

O que a história permite afirmar, com o que há, é mais modesto do que a promessa de quem vende automação de tudo. Diante de um sistema capaz de fazer tudo sozinho, a pergunta útil foi onde ele se recusava a fazer. Essa recusa, deixada por alguém no código, valeu como um desenho de política: automatizar a decisão de quem fala com quem, e deixar a uma pessoa o ato de falar onde a dívida é da casa.

Uma pergunta serve a qualquer dono que esteja sendo vendido a automação de tudo, e é a que a leitura do código respondeu por nós: em que ponto o sistema se recusa a agir sozinho? Um fornecedor que responde “em nenhum” entregou uma máquina sem comporta, e a primeira enchente, que costuma chegar na forma de um cliente à espera, passará por ela sem ninguém para detê-la. Quem aponta as próprias recusas, com o motivo de cada uma, entregou um desenho que se pode auditar.

Onde fica a comporta?

Os dados deste ensaio são de uma clínica real de SP, do nicho de estética, anonimizada a pedido. Nomes, cidade, sistemas e arquivos específicos foram omitidos; as contagens e as datas são as medidas nos sistemas, exceto onde o texto diz que o dado é inferido ou declarado pelo autor.


  1. Émile van Marcke, The Flood Gate (A comporta), sem data. Óleo sobre tela, 62,2 x 82,6 cm. The Metropolitan Museum of Art, Nova York, Bequest of Susan P. Colgate, in memory of her husband, Romulus R. Colgate, 1936 (36.162.2). ↩

  2. BAINBRIDGE, Lisanne. “Ironies of Automation”. Automatica, v. 19, n. 6, 1983, p. 775-779. A paráfrase é livre. ↩

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Um texto quando houver algo que valha ler. Sem sequência de venda.

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