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Ensaio · Marketing de produto

Antes da ponte

Quem constrói para a outra margem precisa antes ter o cliente na cabeceira, e o nome que o produto recebe decide se ele chega até a ponte.

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Estampa japonesa em cores de céu alaranjado e água azul: uma ponte longa e estreita, sobre estacas, atravessa o lago em diagonal, da margem com casas e barcos, à esquerda, até sair do quadro pela direita; velas brancas espalhadas pela água e uma montanha de cone perfeito ao fundo.
Utagawa Hiroshige, A ponte longa de Seta, sem data no registro. Xilogravura em cores. The Metropolitan Museum of Art, Nova York. Domínio público (CC0), via Met Open Access.

A ponte longa

Na estampa de Hiroshige, a ponte de Seta parte de uma margem com casas e barcos e segue, sobre estacas, por cima do lago, até sair da moldura sem mostrar a outra margem. Quem está na cabeceira vê o caminho, e quem está do outro lado talvez ainda nem saiba que há uma travessia. Penso nela ao ver um produto feito para um futuro que o cliente ainda não sabe pedir.

Matt Hodges foi o primeiro profissional de marketing da Intercom, e numa palestra de 2017, publicada depois em forma de transcrição, contou o que aprendeu nesse lugar.1 Dos episódios que ele relata, ficam aqui dois, o de um endereço de internet e o de um nome de produto, porque nos dois a casa e o cliente falavam de coisas diferentes com as mesmas palavras.

O endereço

A cerca de seis semanas do lançamento planejado de um produto de ajuda ao cliente, numa reunião, Paul, o vice-presidente de produto, disse que aquilo não era um produto de documentação, e Raechel, uma das profissionais de marketing de produto da equipe de Hodges, perguntou: “Então por que a nossa central de ajuda, movida pelo produto, mora em docs.intercom.com?” Hodges registra o silêncio que se seguiu e a constatação de que as duas áreas não estavam alinhadas sobre o que construíam nem sobre como levá-lo ao mercado. Adiaram o lançamento por alguns meses, o que era ruim, porque o produto entrava nas metas da empresa e nas previsões financeiras. Em retrospecto, conta ele, a decisão foi absolutamente a certa, e dois meses depois de lançado o produto já era um negócio de 1,2 milhão de dólares em receita anual recorrente e crescendo. Hodges não dá a conta do atraso; diz apenas que agora era possível pôr um valor em dólares no custo do desalinhamento, e convida o leitor a fazê-la.

O endereço da central de ajuda parece uma frase que ninguém revisou: dizia, para quem olhasse, o que a casa acreditava que o produto era. O que o número mostra, na minha leitura, é que o custo de um desalinhamento só fica visível quando o produto vende. Quantos outros terminam em silêncio, sem que ninguém possa dizer quanto custaram? Em sistema interno, o mesmo acontece com o nome de um campo, o rótulo de um menu ou a coluna de um relatório, que carregam uma definição que ninguém escreveu. Em Dois relógios, chamei de opinião bem formatada uma taxa sem definição operacional, e o mecanismo é o mesmo: a palavra circula com mais autoridade do que tem.

O nome tem de ter uso

Wittgenstein escreveu, nas Investigações filosóficas, que o significado de uma palavra, para uma grande classe de casos, é o seu uso na linguagem.2 O outro episódio de Hodges é uma disputa entre duas palavras, uma com uso e outra sem. Ao lançar um produto de chat, ele queria apresentá-lo como live chat, o nome que o mercado já usava, e a equipe de produto insistia em que o chat ao vivo era uma relíquia do passado e que o que se devia levar ao mercado era um produto de mensagens assíncronas, fluido e sem costuras. Ele reproduz a mensagem de Paul Adams, então vice-presidente de produto, e conta que pensou: você está brincando?

O mais interessante vem depois, e é um gesto de honestidade: Hodges não sustenta que estava certo. Diz que o pessoal de produto tinha cem por cento de razão e que o marketing tinha os seus próprios vieses. O argumento dele cabe em cifras. Na época do lançamento, havia mais de 100 mil buscas mensais no mundo por live chat software e quase nenhuma por asynchronous messaging. Paul diria que era preciso construir uma ponte até o futuro, e Hodges concorda, mas o que ele responde é: “tínhamos de levar as pessoas primeiro até a ponte”.

Live chat era uma palavra com uso, digitada em mais de cem mil buscas por mês, e mensagem assíncrona era uma proposta de uso, feita por quem já enxergava a outra margem. Quem lança nessa situação carrega duas tarefas, e uma delas costuma ser esquecida: dar ao produto um nome que exista e ensinar, ao lado dele, o nome que virá a existir.

Não quero concluir que o marketing tem sempre razão ao insistir no nome de hoje, e o próprio episódio me impede. A contagem de buscas é o censo do que as pessoas já querem; uma empresa que só nomeia o que é procurado só constrói o que já existe, e o produto de Adams estava certo justamente por olhar adiante. Minha saída, que o texto não formula assim, é usar a palavra velha como entrada e a nova como destino, o que uma página de lançamento consegue fazer, com a palavra do cliente no título e a do futuro na explicação.

A palavra de destino vira palavra de entrada por uma única via, o uso, e quem a usa primeiro é a própria empresa: no título da página, na assinatura da mensagem, na resposta do atendimento. Uma palavra nova que só aparece no comunicado de lançamento não ganha uso, ganha data, e passa a constar do histórico da casa como mais um termo que ninguém repetiu. Nesse ponto produto e marketing trabalham sobre o mesmo verbo: ao produto cabe construir a margem de lá, e ao marketing, fazer com que alguém comece a dizer o nome dela.

A busca é, aliás, o único lugar em que o uso de uma palavra se deixa contar sem perguntar a ninguém. Dentro da empresa o uso também se conta, e de graça: basta pôr lado a lado as palavras que o atendimento digita ao descrever um problema e as que a equipe de produto digita ao descrevê-lo no sistema. Quando as duas listas não se tocam, há duas línguas na mesma casa, e a ponte ainda não tem cabeceira.

Duas linhas na ficha

Hodges diz que a Intercom mudou a forma de construir produto. Tudo o que se planeja levar mais de uma semana para construir começa com produto e marketing alinhando a história que se quer contar no lançamento. Ele mesmo resume a lição numa frase que repito: é preciso começar pela história antes de construir qualquer coisa. E admite que a tensão continua, e que a considera saudável, porque leva a uma solução melhor para o cliente.

Traduzo isso, para a mesa de quem mantém um backlog, numa regra de ficha. Antes da especificação, cada ficha ganha duas linhas: a frase da casa, como a equipe chamaria o item, e a palavra do cliente, como ele pediria, tomada das últimas mensagens que chegaram ao atendimento e não inventada. Se as duas não cabem numa única frase de lançamento, a ficha não está pronta. A divergência, por sua vez, não precisa ser resolvida em favor de um dos lados. Basta decidir qual palavra serve de entrada e qual de destino, e escrever as duas. Ficha sem as duas linhas volta para a bancada, como ficaria o lançamento de Hodges, que aprendeu o preço disso com um calendário adiado e uma previsão financeira que dependia da data.

A cabeceira

Na estampa, o que se vê é a cabeceira, as estacas e o caminho, e a travessia depende de alguém reconhecer, na primeira margem, o que foi procurar. A empresa que quer levar o cliente a um lugar novo precisa antes garantir que ele saiba o nome do ponto de partida.

Que palavra o seu cliente digitaria para encontrar o que você está construindo?

Fonte: Matt Hodges, “Matt Hodges on aligning product and marketing”, Intercom Blog, 22 de novembro de 2018.


  1. HODGES, Matt. “Matt Hodges on aligning product and marketing”. Intercom Blog, 22 de novembro de 2018. A página traz a transcrição, pouco editada, de uma palestra dada na turnê Inside Intercom de 2017; o ensaio se baseia no texto. Todas as citações de Hodges são traduções minhas do inglês. Os números (mais de 100 mil buscas mensais; receita de 1,2 milhão de dólares dois meses após o lançamento) vêm da transcrição. ↩

  2. WITTGENSTEIN, Ludwig. Philosophische Untersuchungen (Investigações filosóficas), § 43: “Para uma grande classe de casos, embora não para todos, em que empregamos a palavra ‘significado’, ela pode ser definida assim: o significado de uma palavra é o seu uso na linguagem.” Tradução minha da versão inglesa corrente. ↩

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