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Ensaio · Liderança

O editor

Quando mais gente passa a escrever software dentro da empresa, o dono deixa de racionar programadores e passa a decidir o que merece ser publicado.

Ler com IA
Claude ChatGPT
Gravura em preto e branco de um quarto de estudo: um velho de barba e auréola escreve curvado sobre um pupitre, à mesa, ao fundo à direita; uma ampulheta e um chapéu pendem da parede; à esquerda, sob uma janela de vidraças em losangos, há um crânio e almofadas sobre um banco; em primeiro plano, um leão e um cão dormem no chão.
Albrecht Dürer, São Jerônimo no seu gabinete, 1514. Gravura em metal. The Metropolitan Museum of Art, Nova York (Fletcher Fund, 1919). Domínio público (CC0), via Met Open Access.

Tantas versões quanto manuscritos

Por volta de 382, o papa Dâmaso encarregou Jerônimo de pôr ordem nos Evangelhos em latim, que circulavam em cópias tão diferentes entre si que, nas palavras do próprio Jerônimo, havia quase tantas versões quanto manuscritos.1 Jerônimo partiu do que já corria de mão em mão, confrontou as cópias com o grego e fixou um texto. Dürer o gravou em 1514 à sua mesa, debruçado sobre o pupitre, com a ampulheta na parede, o crânio na janela e, no chão, um leão e um cão adormecidos. A sala está em ordem porque alguém trabalha nela.

Pensei na gravura ao abrir a página que a McKinsey dedica ao tema “Como os CEOs lideram na virada da IA”, datada de 6 de setembro de 2026.2 Ela reúne uma série de conversas em podcast em que o sócio sênior Eric Kutcher ouve presidentes de empresas sobre como ligar a IA às prioridades do negócio. Li apenas o texto da página, que resume três dessas conversas, e não os episódios, de modo que o que segue trabalha com esse resumo e com as falas que ele cita.

O dilema do meio

Andrew Schlossberg, presidente da Invesco, conta que a empresa pôs as ferramentas nas mãos de todos os funcionários e deixou as ideias nascerem de quem repensa o próprio trabalho. O desafio de liderança, segundo a página, é o equilíbrio: “Você precisa resistir à tentação de fazer tudo de cima para baixo e controlado”, diz ele, “e também resistir à tentação de fazer tudo de baixo para cima e empreendedor”.

As cópias divergentes de Jerônimo contavam, aliás, uma boa notícia: um texto que todos copiam é um texto em uso, e ninguém precisa de revisor para aquilo que ninguém lê. Uma empresa em que ninguém faz por conta própria a ferramenta de que precisa tem um problema mais sério que o da divergência, e o primeiro movimento de Schlossberg, pôr as ferramentas à mão de todos, vai na direção certa.

Qualquer dono de empresa assente com a frase de Schlossberg, e ela deixa a pergunta prática intacta: onde parar entre as duas tentações? A resposta mais antiga de que disponho vem da oficina de texto. A escrita é livre, e a publicação é controlada. Quem escreve um rascunho não pede licença a ninguém; quem publica responde pelo nome, e passa antes por alguém cujo ofício é ler o que os outros escreveram. Ninguém chama a primeira etapa de bagunça nem a segunda de burocracia, porque cada uma serve a uma coisa diferente.

Traduzida para uma empresa que agora produz software em muitas mãos, a divisão fica assim. Rascunho é a ferramenta que alguém fez para si, com os próprios dados, e que morre quando ele a abandona. Publicação é o instante em que outras pessoas passam a depender dela: quando ela lê ou grava no sistema de registro, quando fala com o cliente por WhatsApp, quando continua rodando sem o autor por perto. Até esse instante, a liberdade é total e o custo de errar é do autor. A partir dele, valem critérios que o dono fixa de cima, uma vez, e que valem para todos.

Cinco perguntas de quem edita

Proponho cinco perguntas, que cabem numa folha e se respondem em dez minutos por ferramenta.

Quem responde por ela, e quem a assume se o autor sair? Um sistema precisa de dois nomes, o titular e o substituto, porque uma ferramenta com um só nome tem a duração da estadia dele na empresa.

O que ela lê e o que ela escreve? A leitura é barata e quase sempre segura, ao passo que a escrita no sistema de registro exige permissão revogável e campo de valores fechados no lugar de texto livre.

Quem a leu antes de entrar no ar? A conferência cabe a uma pessoa diferente da que a escreveu, por uma razão que todo revisor conhece: o autor lê o que quis dizer, e o revisor lê o que está escrito.

Como se desfaz? Toda publicação precisa de um caminho de volta, dito antes, que alguém já tenha percorrido uma vez.

Quando expira? Ferramenta publicada ganha data de revisão; se ninguém a renova, ela é desligada, e desligar passa a ser o comportamento normal, e nunca um ato de coragem.

Quando a pergunta for de quem é o sistema, a resposta já existe em outro ensaio meu. Em Sobre a areia, o inventário de uma operação listou 45 sistemas; 20 não tinham dono conhecido e nenhum havia sido conferido alguma vez. Cada um deles é, por esse critério, um texto publicado sem editor.

Quem escreve

Sridhar Ramaswamy, que dirige a Snowflake, vê a IA alterar quem pode criar software, além da velocidade com que ele sai. A página o cita assim: “Uma previsão é que muito mais gente poderá escrever software.” Mais adiante vêm as perguntas que a página associa à frase, sobre como os líderes redistribuem pessoas e repensam o trabalho à medida que a capacidade se espalha, e um dos episódios listados leva o título de “A IA está transformando toda empresa em empresa de software”.

Para o dono, a consequência mais imediata incide sobre o orçamento. Software deixa de ser linha da área de tecnologia e passa a ser subproduto do trabalho de todos, e quem conhece a operação por dentro, o atendente, o financeiro, o comercial, é quem escreverá as melhores ferramentas e também as mais frágeis. Ficam à vista o poder e o perigo do mesmo gesto.

Na página Sobre deste site descrevo parte do meu trabalho como transformar pedido de usuário em funcionalidade. Relendo a frase ao lado do que a McKinsey reúne, vejo que o ofício é editorial por natureza: chega um rascunho, que é o pedido; confronta-se o rascunho com a operação, que faz o papel do grego de Jerônimo; e decide-se o que entra. Quando o próprio usuário puder escrever a funcionalidade, o pedido desaparece e o confronto continua necessário. Em linguagem de gestão, o critério de aceite é o texto do editor.

Sem esse confronto, o risco é o de Jerônimo. Escrevi em Dois relógios sobre um mês que valia um número num dia e outro no dia seguinte. Imagine-se agora cada pessoa da empresa escrevendo a sua própria consulta para “o mês”, cada uma com uma definição honesta e diferente: haverá quase tantos meses quanto planilhas.

O tempo devolvido

A terceira voz da página é a de Laura Hines-Pierce, co-presidente da Hines, do setor imobiliário, que quer que a IA “liberte as pessoas dos computadores e permita que gastem mais tempo criando valor no mundo real”, e que a página detalha em relações, prospecção de negócios, acompanhamento de obras e entrega de experiências aos ocupantes. É a frase que mais me agrada das três, porque traz a pergunta que quase ninguém faz depois de automatizar uma tarefa: para onde vai o tempo que sobrou?

O editor tem esse segundo dever. Uma automação que devolve quatro horas por semana a um atendente produz, conforme o destino das horas, resultados opostos: pode levá-lo a conversar mais com clientes que já estão na fila, ou pode dissolvê-las em mais tela, mais mensagem interna, mais reunião. Sistema interno que se conecta ao WhatsApp, como o que especifico, tem a tela do CRM como lugar de passagem, e uma boa tela existe para que a pessoa saia dela e vá falar com alguém. Recomendo duas colunas numa planilha, horas devolvidas e horas aplicadas em contato com cliente, e uma regra: se a segunda coluna estiver vazia, a empresa economizou um custo e não ganhou nada.

A mesa

Dürer põe o leão e o cão a dormir no chão do gabinete, e a imagem tem um sentido que só se vê depois. O silêncio daquela sala vem do trabalho de um homem que lê, compara e escolhe, e ele abre espaço para o descanso do resto. O mesmo vale para uma empresa em que muita gente escreve: a calma dos outros depende de alguém cuja função é decidir o que passa.

Liberar a escrita é a parte fácil, e a página da McKinsey mostra presidentes de empresas de porte e de ramos muito diferentes fazendo isso. A publicação fica com o dono, por uma razão contábil simples: é ali que o risco sai da conta do autor e entra na conta da empresa. Na sua, quem assina a edição?

Fonte: McKinsey & Company, “How CEOs are leading through the AI shift”, série de conversas com Eric Kutcher, McKinsey & Company, 6 de setembro de 2026, acesso em 30 de setembro de 2026.


  1. A revisão dos Evangelhos por Jerônimo a pedido do papa Dâmaso, por volta de 382, e a queixa de que as cópias latinas divergiam (“Tot enim sunt exemplaria paene quot codices”, no prefácio aos Evangelhos) são descritas em: verbete “Letter of Jerome to Pope Damasus”, Wikipedia, https://en.wikipedia.org/wiki/Letter_of_Jerome_to_Pope_Damasus. A gravura é de Albrecht Dürer, Saint Jerome in His Study, 1514, Metropolitan Museum of Art (Fletcher Fund, 1919, nº 19.73.68, objeto 336229). ↩

  2. MCKINSEY & COMPANY. “How CEOs are leading through the AI shift”. Página temática, 6 de setembro de 2026, acesso em 30 de setembro de 2026. https://www.mckinsey.com/featured-insights/themes/how-ceos-are-leading-through-the-ai-shift. Todas as citações deste ensaio são traduções minhas do inglês. ↩

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