Alex Mërović
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Ensaio · Decisões de produto

O preço de tudo

Numa clínica de SP, do nicho de estética, o lead mais barato da conta era o que menos virava receita. Como a métrica certa media a coisa errada, e o que fizemos para ensinar à máquina a diferença entre preço e valor.

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Claude ChatGPT
Pintura de 1514: um cambista pesa moedas numa pequena balança enquanto a esposa desvia o olhar do livro de horas para o dinheiro. Um espelho convexo reflete alguém fora da cena.
Quentin Massys, O cambista e sua mulher, 1514. Museu do Louvre. Domínio público, via Wikimedia Commons.

“O cínico é um homem que sabe o preço de tudo e o valor de nada.”

Oscar Wilde, O leque de Lady Windermere, 1892

A balança

No quadro de Massys, o cambista não olha para a esposa, nem para o livro, nem para nós. Olha para a balança. É o gesto mais honesto da pintura flamenga: um homem tentando saber quanto uma coisa vale de verdade, moeda por moeda, antes de aceitá-la. A esposa, que deveria estar lendo um livro de horas, desvia o olho para o ouro. E no espelho convexo sobre a mesa aparece alguém que está fora do quadro, observando.

Há um registro do século XVII segundo o qual a moldura original trazia uma frase do Levítico: que a balança seja justa e os pesos iguais.1 Eu penso nessa frase toda vez que abro um painel de anúncios. O painel é uma balança. A pergunta é sempre a mesma: os pesos estão iguais, ou alguém calibrou a balança para medir a coisa mais fácil de pesar?

Em julho de 2026 eu assumi, pela consultoria, a operação comercial e de mídia de uma clínica de SP, do nicho de estética. A conta de anúncios parecia saudável. Custo por conversa razoável, volume crescendo, um criativo campeão carregando um terço do resultado sozinho. Todo mundo olhava para o mesmo número, e o número dizia que estava tudo bem.

Ele estava mentindo com a cara mais limpa do mundo. Não por fraude. Por obediência.

O lead mais barato

A clínica tem quatro linhas de receita. Um procedimento cirúrgico de alto ticket, com ciclo de decisão de cerca de cem dias. Um tratamento clínico recorrente. Uma linha corporal não invasiva, que funciona como porta de entrada. E uma linha facial, pequena.

No custo por conversa, a linha corporal ganhava de lavada. Era a conversa mais barata da conta, 38% mais barata que a do procedimento de alto ticket. Qualquer gestor de mídia olharia aquilo e faria o óbvio: mais verba para quem entrega mais barato. Foi o que a própria plataforma fez, sozinha.

Então cruzei o relatório de mídia com o relatório de vendas. É um cruzamento banal, que quase ninguém faz, porque os dois moram em sistemas diferentes e respondem a pessoas diferentes.

Figura 1 · julho de 2026

Onde a verba ia, e de onde a receita vinha

% da mídia% da receita

Parcela de cada linha no investimento e no faturamento do mês. O restante da mídia rodou em campanhas amplas, sem linha definida. Fonte: exportações das plataformas de anúncio e relatório de vendas do sistema de gestão da clínica.

A linha corporal recebia 12,6% da mídia e devolvia 4,3% da receita. O procedimento de alto ticket recebia 11,2% e devolvia 55,4%. Cada real posto no alto ticket voltou 48,8 vezes. Cada real posto no corporal voltou 3,4 vezes. A diferença é de catorze para um.

Figura 2 · o mapa do engano

Custo por conversa contra retorno por real investido

Eixo horizontal: custo por conversa em índice, com a linha corporal valendo 100. Eixo vertical: receita dividida por investimento, em escala logarítmica. Quanto mais para cima e para a esquerda, melhor. Nenhuma linha mora lá.

O lead mais barato era o que menos valia. A métrica de custo não estava errada. Estava respondendo com precisão a uma pergunta que ninguém deveria ter feito.

A máquina obedece

É tentador culpar o algoritmo. Seria injusto. O otimizador da plataforma fez exatamente o que mandamos: encontrar pessoas que começam uma conversa no WhatsApp pelo menor custo possível. Conversa de procedimento corporal é abundante, impulsiva e barata. Então ele empurrou a verba para lá. Trabalho impecável. Objetivo errado.

Charles Goodhart descreveu isso em 1975, falando de política monetária: qualquer regularidade estatística tende a colapsar quando você passa a pressioná-la para fins de controle.2 A antropóloga Marilyn Strathern resumiu melhor, anos depois: quando uma medida vira meta, ela deixa de ser uma boa medida.3 Donald Campbell chegou ao mesmo lugar pela sociologia.4 E Steven Kerr, num artigo de 1975 que devia ser leitura obrigatória para todo PO, deu à coisa o nome definitivo: a loucura de recompensar A esperando B.5

Nós recompensávamos conversa e esperávamos receita. A máquina, sem ironia nenhuma, entregou conversa.

“Resista às proxies.”

Jeff Bezos, carta aos acionistas da Amazon, 2016

Bezos escreveu isso sobre processo, mas vale para métrica. À medida que uma operação cresce, ela passa a gerenciar o representante no lugar da coisa. O custo por conversa é um representante. Ele foi escolhido um dia porque era fácil de ler e porque, em alguma conta, andava junto com a receita. Aqui, deixou de andar. Ninguém percebeu, porque o painel mostrava o representante e não a coisa.

Charlie Munger dizia que nunca, jamais, se deve pensar em outra coisa quando se deveria estar pensando no poder dos incentivos.6 Um otimizador de anúncios é o incentivo em estado puro. Ele não tem opinião, não tem cansaço, não tem pudor. Ele só tem o alvo que você deu.

Mediocristão e Extremistão

Nassim Taleb separa o mundo em duas províncias.7 No Mediocristão, nenhuma observação isolada muda a média: altura, peso, consumo de calorias. No Extremistão, uma única observação pode valer mais que todas as outras somadas: patrimônio, venda de livros, audiência. A graça é que as duas províncias convivem na mesma planilha e ninguém avisa quando você atravessa a fronteira.

Lead mora no Mediocristão. Um lead se parece muito com o outro, custa mais ou menos o mesmo, pesa quase igual no painel. Receita de clínica mora no Extremistão.

Figura 3 · as 70 vendas de 1 a 25 de julho

16 vendas fizeram 90,8% do faturamento

Cada ponto é uma venda. Em dourado, as vendas acima do ticket de corte da clínica. As outras 54, na maioria medicação avulsa e recompra de base, somaram 9,2%.

Quando a distribuição é essa, otimizar para o custo médio do lead é otimizar para o lugar onde o dinheiro não está. O painel de mídia vive no Mediocristão porque trata todo lead como igual. O caixa vive no Extremistão porque não trata.

O caso fica mais cruel quando se olha o tempo. O procedimento de alto ticket leva, na mediana, cem dias da primeira conversa à venda. A conversa corporal fecha rápido, ou não fecha. Um painel que olha a semana sempre vai preferir a conversa rápida, porque é a única cuja consequência cabe na janela dele.

John Wanamaker, o lojista da Filadélfia, teria dito que metade do dinheiro que gastava com propaganda era desperdiçada, e que o problema era não saber qual metade. A frase também é atribuída a Lord Leverhulme, e ninguém achou a fonte primária de nenhum dos dois.8 Acho isso perfeito. Até o aforismo mais famoso sobre atribuição tem problema de atribuição.

Retrato fotográfico em preto e branco de John Wanamaker sentado à mesa de trabalho.
John Wanamaker, retrato sem data. Biblioteca do Congresso dos EUA. Domínio público.

Duas decisões e um campo obrigatório

Dava para fazer o óbvio: cortar a linha corporal. Não fizemos. Ela ainda tinha o segundo menor custo por conversa e sustentava o criativo campeão da conta. Cortar a porta de entrada para salvar a sala de estar é o tipo de decisão que parece corajosa na reunião e custa caro no trimestre. A primeira decisão foi mais sóbria: redistribuir a verba pelo que cada linha devolve, e não pelo que cada conversa custa.

Figura 4 · a verba redistribuída

Plano de agosto contra o realizado de julho, por bloco

Mesma verba total, outra alocação. O bloco facial saiu porque cada conversa custava cinco vezes a do corporal. A busca por intenção de preço manteve o investimento e mudou de estrutura.

A segunda decisão era a que importava, e não era de mídia. Redistribuir verba à mão é remédio de uma dose. Na semana seguinte, o otimizador volta a fazer o que sabe: correr atrás da conversa barata. Para mudar o comportamento da máquina era preciso mudar o que ela enxerga. Ela precisava saber, a cada conversa, de qual anúncio aquela pessoa veio e quanto aquela pessoa provavelmente vale.

Isso virou um pedido pronto para o desenvolvimento, escrito no dia 31 de julho, com três regras que eu considero o coração do trabalho de produto neste caso.

Figura 5 · o sinal de valor

Peso relativo enviado à plataforma por conversa, por linha declarada na entrada

Pesos normalizados pela linha corporal. Os valores absolutos não importam para o otimizador, só a proporção entre eles. Sem linha preenchida, a conversa leva o peso médio da conta.

Primeira regra: o identificador do anúncio é urgente, o resto pode esperar. Quem clica num anúncio e cai no WhatsApp chega com um identificador de clique colado na primeira mensagem. Só na primeira. Se o sistema não guardar naquele instante, aquela conversa nunca mais poderá ser ligada a anúncio nenhum. Tem dado que se busca depois. Esse não. Toda conversa que entra sem captura é uma conversa perdida para a atribuição, para sempre.

Segunda regra: a linha de receita é um campo obrigatório de valores fechados, nunca texto livre. Texto livre vira sopa em duas semanas. “Corporal”, “corpo”, “abdômen”, “emagrecer”, e o valor enviado para a máquina sai errado sem que ninguém perceba. Um campo com quatro opções é uma decisão de produto que parece burocracia e na verdade é o contrato entre o atendimento e o algoritmo.

Terceira regra: sinal com valor médio é melhor que sinal nenhum. Se a atendente não souber a linha, a conversa sai com o peso médio da conta. E se a pessoa entra pela porta corporal e fecha o procedimento de alto ticket, não se tenta acertar na entrada. A venda, quando acontece, corrige o valor com o número real do contrato.

Especificar é decidir o que o sistema tem permissão de ignorar. Aqui, decidimos que ele não podia mais ignorar quanto uma conversa vale.

A correção que a pesquisa impôs

Eu gostaria de contar que o sinal de valor resolveu tudo. Seria um bom final e uma mentira.

Duas semanas depois, fechando um dossiê para reduzir o custo de aquisição, esbarrei no que eu não tinha medido. A otimização por valor das plataformas exige volume: dezenas de conversões com valores distintos em janelas de catorze dias. A clínica fecha algo perto de dezesseis vendas relevantes por mês. Não é elegível para o modo mais agressivo. E o único teste controlado com metodologia publicada que encontrei mostrou que otimizar por valor aumentou o retorno em 18%, mas piorou o custo por conversão em 24%.9

Ou seja: mandar valor resolve o mix, a proporção entre conversas caras e baratas. Não resolve, sozinho, o custo de aquisição. Eu tinha acertado o diagnóstico e superestimado o remédio.

O que reorganizou o problema foi uma identidade simples, que eu deveria ter escrito no quadro no primeiro dia. O custo de aquisição não é uma métrica de mídia. É uma fração em que a mídia controla só o numerador:

Figura 6 · calculadora

Custo por cadeira ocupada = custo por lead ÷ (lead → agendamento × comparecimento)

100 ponto de partida índice do custo por cadeira ocupada; agosto de 2026 = 100

Taxas de agendamento e comparecimento apuradas na clínica em agosto de 2026. O caminho de “três passos modestos” combina custo por lead −8%, agendamento +15% e comparecimento +14%, e chega a −29,8%, praticamente o mesmo que um corte heroico de 30% só na mídia.

Os termos multiplicam. Três melhorias pequenas batem uma melhoria heroica, e duas delas moram no atendimento, onde a concorrência não consegue disputar. Custo por lead é o único termo que todo anunciante da região está brigando para baixar ao mesmo tempo. Os outros dois só a clínica controla.

E há um limite mais duro ainda, que me fez perder um pouco da vaidade de analista. Randall Lewis e Justin Rao analisaram 25 grandes experimentos de campo com anúncios e mostraram que, mesmo com 200 mil usuários, o teste estatístico esperado para medir retorno fica em torno de 1,04.10 Não prova nada. Se empresas com milhões de usuários não conseguem medir com precisão o retorno da mídia, uma clínica não vai conseguir. O que dá para fazer é escolher bem o que se mede, declarar o que não se sabe e parar de discutir decimal de custo por lead.

O que isso ensina a quem constrói produto

Pintura satírica do século XVII: macacos vestidos como mercadores negociam tulipas, pesam moedas e fazem contas diante de um canteiro de flores.
Jan Brueghel, o Jovem, Sátira à tulipomania, c. 1640. Frans Hals Museum, Haarlem. Domínio público, via Wikimedia Commons. Macacos negociando bulbos por fortunas: o preço descolado do valor, pintado três anos depois do colapso.

Brueghel pintou mercadores de tulipa como macacos, pesando moedas e assinando contratos por bulbos que valiam uma casa. A sátira não é sobre ganância. É sobre gente muito ocupada medindo o preço com precisão, sem nunca perguntar o que a coisa vale.

Eu saí desse caso com três convicções que hoje aplico em qualquer sistema que especifico.

A métrica é parte da especificação. Antes de decidir a funcionalidade, decide-se o que ela vai fazer o número mudar, e se esse número anda junto com o resultado que importa. Um campo obrigatório de linha de receita não aparece em nenhum roadmap bonito. Foi a funcionalidade mais valiosa do trimestre.

Todo painel precisa mostrar o próprio ponto cego. O custo por conversa não estava errado. O erro foi ele estar sozinho na tela. Um número sem a pergunta que ele responde é só um número bem formatado.

Humildade é método, e não traço de personalidade. Eu errei o tamanho do remédio. Achei o erro porque tinha escrito a hipótese antes, com fonte e nível de evidência, e porque fui atrás do teste que podia me contradizer. Sem isso, eu teria defendido o sinal de valor em toda reunião até o trimestre acabar.

Pintura de 1857: três camponesas curvadas recolhem espigas deixadas no campo depois da colheita, com medas de trigo ao fundo.
Jean-François Millet, As respigadeiras, 1857. Museu d’Orsay. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Millet pintou as mulheres que entram no campo depois da colheita para recolher o que ficou no chão. Ninguém olha para elas. O trigo grande já foi para as medas, lá no fundo, iluminado.

Agosto me mostrou que boa parte da receita da clínica também estava no chão, depois da colheita. Não na mídia, mas no que acontecia com a pessoa depois que ela mandava a primeira mensagem: quanto tempo esperava resposta, se era lembrada da avaliação, se aparecia. A mídia era a meda iluminada. O dinheiro perdido estava no restolho.

Essa é a próxima história.

Que a balança seja justa, e os pesos iguais.

  1. Levítico 19,36. A inscrição na moldura original do quadro de Massys é conhecida por uma descrição do século XVII; a moldura se perdeu.
  2. GOODHART, Charles. Problems of Monetary Management: The U.K. Experience. Papers in Monetary Economics, Reserve Bank of Australia, 1975.
  3. STRATHERN, Marilyn. “Improving ratings: audit in the British University system”. European Review, v. 5, n. 3, 1997.
  4. CAMPBELL, Donald T. “Assessing the impact of planned social change”. Evaluation and Program Planning, v. 2, n. 1, 1979.
  5. KERR, Steven. “On the Folly of Rewarding A, While Hoping for B”. Academy of Management Journal, v. 18, n. 4, 1975.
  6. MUNGER, Charles. “The Psychology of Human Misjudgment”, palestra em Harvard, 1995. BEZOS, Jeff. Carta aos acionistas da Amazon, 2016.
  7. TALEB, Nassim Nicholas. A lógica do cisne negro. Rio de Janeiro: Best Seller, 2008.
  8. A frase aparece atribuída a John Wanamaker e a William Lever, 1º Visconde de Leverhulme, sem fonte primária localizada para nenhum dos dois.
  9. IMGE, Testing Hub nº 12, “Does Meta’s Max Value optimization strategy outperform Max Conversion?”. Teste de fornecedor, metodologia declarada, evidência direcional.
  10. LEWIS, Randall A.; RAO, Justin M. “The Unfavorable Economics of Measuring the Returns to Advertising”. The Quarterly Journal of Economics, v. 130, n. 4, 2015.

Os dados deste ensaio são de uma clínica real, anonimizada a pedido. Valores em reais, nomes, cidade e procedimentos específicos foram omitidos; as proporções, os índices e as datas são os medidos. Nenhum número foi arredondado a favor da tese.

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