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Ensaio · Product-market fit

A cheia

O encaixe com o mercado se mede contra uma régua que o cliente carrega e que pode subir de uma estação para a outra, e quase nenhuma empresa tem o instrumento que a lê.

Ler com IA
Claude ChatGPT
Fotografia em sépia de uma margem de rio: em primeiro plano, a água lisa e clara; logo acima, um barranco de terra cortado, com marcas de desmoronamento; no alto do barranco, casas de tijolo em ruínas e entulho de madeira, com três minaretes esguios contra um céu vazio.
Maxime Du Camp, Vista de Girgeh e do litoral levado pela inundação do Nilo, 1849 a 50. Cópia em papel salgado a partir de negativo em papel. The Metropolitan Museum of Art, Nova York. Domínio público (CC0), via Met Open Access.

“O país tem razão em anotar com cuidado os dois extremos.”

Plínio, o Velho, História natural, livro V (tradução minha, a partir da versão inglesa de Bostock e Riley)

O poço no rio

Plínio, o Velho, conta que no Egito a altura da cheia do Nilo era conhecida por meio de poços, e que o número lido ali decidia o ano. Com doze côvados de subida, o país passava fome; com treze, a fome continuava; com catorze, havia contentamento; com quinze, as preocupações se aquietavam; com dezesseis, vinha a alegria sem medida. Acima disso a água demorava a recuar, a terra ficava encharcada e o tempo da semeadura se perdia, de modo que o excesso arruinava a lavoura quase tanto quanto a falta.1

O que me interessa na tabela é o que ela deixa de fora. Ninguém media a colheita para saber como ia o rio; media-se o rio, que ninguém controlava, e a colheita vinha depois, como consequência. A fotografia de Maxime Du Camp, tirada em Girgeh entre 1849 e 1850, mostra o extremo oposto ao da fartura: o barranco cortado pela água, as casas da beira quebradas sobre ele e, escrito à mão no cartão, o título que diz que a inundação levou o litoral.2

Brian Balfour, da Reforge, deu nome ao que chama de Product Market Fit Collapse, o colapso do encaixe entre produto e mercado, e o ilustra com empresas que tinham o encaixe por certo e o perderam em meses. Leio-o com o poço e o barranco diante dos olhos.

O que o CRM não guarda

Num CRM comum, a linha da empresa está toda registrada: contatos, propostas, vendas, receita. O que o cliente trazia na cabeça para comparar a empresa com outra coisa não está em campo nenhum, e é essa a régua que o rio faz subir. Anotar a colheita e deixar de anotar o rio é o que o egípcio de Plínio não fazia: ele media o rio e esperava a colheita.

A esteira e o limiar

Balfour parte de uma figura que Casey Winters e Fareed Mosavat desenharam para o curso de estratégia de produto da Reforge, a esteira do encaixe. Há duas linhas: a do desempenho da empresa e a do limiar a partir do qual o produto passa a contar como encaixado. No começo a primeira fica abaixo, sobe e cruza a segunda; só que a segunda também sobe, porque a expectativa do cliente cresce sem pausa, e quem comemora o cruzamento pode descobrir depois que está sendo ultrapassado por uma régua que ele não media.

Nas viradas tecnológicas anteriores, diz o autor, o limiar subia devagar, e essa lentidão dava aos dirigentes tempo para corrigir o rumo. Com a IA a tese é outra: quando um uso funciona, a adoção é rápida, a ferramenta é barata ou gratuita, e o que ontem bastava passa a parecer obsoleto. Nas palavras do texto, “a janela de adaptação se fecha de golpe antes mesmo de eles reconhecerem a gravidade da ameaça”.

Na linguagem de Plínio, é a cheia de um ano que passa dos dezesseis côvados quando os campos estavam preparados para catorze. A empresa vigia a sua linha, que é a colheita, enquanto o rio sobe por conta própria, e a distância entre as duas só aparece quando a água já chegou à porta.

Pintura a óleo de pinceladas soltas, em azul, lilás e ocre: ao fundo, a água de um rio com uma vela branca pequena; à direita, um homem de turbante empurra uma vara comprida que desce até um grande recipiente de cesto; à esquerda, duas figuras sentadas, uma de preto e uma de azul; em primeiro plano, folhas claras de palmeira sobre a terra do barranco.
John Singer Sargent, Egípcios tirando água do Nilo, 1890 a 91. Óleo sobre tela. The Metropolitan Museum of Art, Nova York. Domínio público (CC0), via Met Open Access.

Ler a cheia

O instrumento que falta é modesto. Uma vez por mês, quem fala com cliente, o comercial, o atendimento, o próprio dono, se reúne por meia hora com uma pergunta só: o que o cliente nos citou, neste mês, como alternativa, e o que fez em vez de nos procurar? Cada um traz as frases que ouviu, de memória ou de mensagens guardadas, e a lista de substitutos, escrita no mesmo papel todo mês, é lida ao lado da do mês anterior. O que interessa é o nome novo que aparece e o antigo que some. Não sei se a periodicidade mensal serve a uma cheia que sobe de golpe; sei que cabe numa empresa pequena, e que a anotação modesta que se faz todo mês vale mais do que a perfeita que ninguém faz.

Balfour dá a quem lê esse papel um ponto de partida em quatro deslocamentos de expectativa: do “um lugar para eu criar” ao “faça o trabalho por mim”; do “um tamanho, e eu customizo” ao “feito sob medida”; das tarefas manuais às automáticas; do pagar por assento ou por mês ao pagar pelo trabalho entregue. Cada um vira uma pergunta de uma linha para a reunião: o cliente pediu que fizéssemos a tarefa em vez de lhe entregar a ferramenta? Quis o produto pronto, sem configurar? Perguntou o preço por resultado? Em Cenário descartável a interface que o agente desenha e descarta pode ser lida como a versão extrema do primeiro deslocamento, e, se a leitura estiver certa, o cliente de amanhã já a pede hoje com outras palavras.

Dos seis testes de risco do artigo, três cabem num registro que a maioria das empresas pode montar neste mês. O primeiro pergunta o quanto se é dono da relação com o cliente, e Balfour sugere medir a fração dos usuários que chegam direto, sem intermediário; quem tem o barranco na beira de um rio alheio mede essa fração antes que a água suba. O segundo é a frequência natural de uso, porque ele acha que produto de uso raro corre mais risco, já que na próxima vez em que a necessidade voltar o cliente troca com facilidade. O terceiro é a posse de dado que os grandes modelos não têm. Os outros três pedem mais conversa: ser dono do fluxo em que a criação acontece, saber o que quebraria o próprio laço de crescimento, e o quanto os clientes estão na ponta da curva tecnológica. Mosavat, citado no texto, supõe que quem atende gente menos afeita a tecnologia esteja menos exposto. Leio nisso um prazo, e prazo e imunidade são coisas diferentes, embora isso seja hipótese minha.

O que a cheia levou

O primeiro caso do artigo é o da Chegg, que oferecia ajuda com lição de casa a estudantes, por assinatura, com respostas escritas por gente selecionada. Em janeiro de 2024 valia US$ 1,2 bilhão; em outubro, US$ 150 milhões; no intervalo perdeu meio milhão de assinantes. Balfour observa que, com receita de US$ 662,08 milhões nos doze meses até setembro, o mercado precificava a empresa em cerca de um quarto do que ela faturava, ou seja, apostava que iria a zero. Uma nota de leitor: a abertura do texto fala em queda de 87,5% e o corpo fala em 90%; a conta com os números dados (150 sobre 1.200 resulta em 12,5%) fica com a abertura.

O mecanismo vem descrito como um laço. Respostas de qualidade, distribuídas por busca e por outros canais, traziam assinantes; assinantes financiavam novas respostas. Quando um estudante passou a poder digitar o dever e receber de imediato uma resposta personalizada, ainda que nem sempre certa, o laço girou ao contrário: menos assinantes, menos conteúdo, menos assinantes. Casey Winters, citado no artigo, lembra que a Chegg já atravessara uma virada dessas, a do livro físico para o digital, porque “essa transição aconteceu numa linha de tempo lenta o bastante para virar do aluguel de livros para a ajuda com dever de casa”. A empresa sabia mudar; faltou prazo. O Stack Overflow, segundo caso do artigo, tem o mesmo desenho, com autores de outra origem: um desenvolvedor pergunta, outro responde em troca de reconhecimento, e a porta de entrada, como na Chegg, era a distribuição por busca e outros canais, que a empresa não possuía.

Apostar a empresa

A frase mais dura do artigo também vem de Winters: “para evitar o colapso do encaixe é preciso prevê-lo com muita antecedência e então apostar a empresa”. O texto reconhece que a tarefa é extremamente difícil, e recomenda, como parte do remédio, destinar mais recursos à expansão do encaixe do que o uso atual do produto justificaria, ainda que os dados de uso não peçam isso.

A utilidade da tabela de Plínio está em ter sido escrita antes da cheia. Cada leitura do poço trazia um nome e uma consequência, e ninguém precisava discutir, em plena água, se catorze côvados eram motivo de contentamento ou de cuidado. A leitura mensal pede o mesmo tipo de regra, em duas linhas: se um substituto novo aparecer em duas reuniões seguidas, a reunião já marcada para esse caso é convocada, e ela decide se abre uma aposta de expansão. O que importa é a regra ter sido combinada antes de alguém precisar dela, e não o gatilho exato.

Uma ressalva de leitor. O artigo traz três casos, dois já ocorridos e um que o autor julga iminente, e termina recomendando produtos da própria casa. Nada disso derruba o argumento, mas convém lê-lo sabendo. É, aliás, a parede dos afogados que faltava em Ex-voto: temos quem caiu, e falta o denominador, que é saber quantas empresas de conteúdo enfrentaram a mesma cheia e resistiram, e por quê.

A empresa que mede apenas a própria colheita descobre a cheia pelo barranco que já não existe.

Quem anota

O Egito tinha uma cheia de estação certa, que Plínio diz ter variado de cinco a dezoito côvados, e mesmo assim mantinha homens junto ao poço, anotando. A cheia de que fala Balfour tem ritmo menos certo, e a anotação, por isso, importa ainda mais.

Quem não instala o instrumento fica com a linha da própria colheita, que é um bom retrato do passado.

Fonte: Brian Balfour, “Product Market Fit Collapse: Why Your Company Could Be Next”, Reforge Blog, 22 de janeiro de 2025.


  1. PLÍNIO, o Velho. História natural, livro V, capítulo 10 na tradução inglesa de John Bostock e Henry T. Riley (Perseus Digital Library). A passagem diz que a medida da cheia se conhece por meio de poços, que a altura desejável é de dezesseis côvados e que o país tem razão em anotar com cuidado os dois extremos. A tradução para o português é minha. ↩

  2. A fotografia é o objeto 287096 do Metropolitan Museum of Art. O título, em francês, é Vue de Girgeh et du littoral enlevé par l’inondation du Nil, escrito à mão no cartão; a descrição da imagem segue o que ela mostra. ↩

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