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Ensaio · Product-market fit

Degraus

Ninguém sente o encaixe com o mercado por inteiro, porque ele só existe com um grupo de cada vez, e o grupo que falta é justamente o que a empresa quer.

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Claude ChatGPT
Pintura de paisagem com grandes árvores de folhagem clara e um trecho de mar ao fundo: à esquerda, à sombra, um casal de jovens se beija, com cabras ao lado; no centro, duas crianças espiam por cima de um montículo; à direita, bem pequenas, duas figuras de vermelho conversam entre as árvores.
Dosso Dossi, As três idades do homem, c. 1515. Óleo sobre tela. The Metropolitan Museum of Art, Nova York. Domínio público (CC0), via Met Open Access.

“Na minha experiência, você está sempre esticando o encaixe entre produto e mercado.”

Shishir Mehrotra, em Lenny Rachitsky, A guide for finding product-market fit in B2B, Lenny’s Newsletter, 12 de setembro de 2023 (tradução minha)

Três idades na mesma clareira

Na clareira de Dosso Dossi, as três idades do título dividem a mesma paisagem: os jovens, no primeiro plano, só têm olhos um para o outro; as crianças espiam de trás de um morro; e duas figuras pequenas, ao longe, conversam sob o arvoredo. Quem olha o quadro as vê de uma vez, e dentro dele cada grupo vive a sua própria hora.

Com 100 milhões de usuários ativos por dia e quase um bilhão por mês, o YouTube não achava ter encontrado o encaixe com o mercado, conta Shishir Mehrotra, então à frente da Coda, a Lenny Rachitsky. Faltava-lhe o público que queria: tinha os adolescentes e não tinha os adultos, e invejava a satisfação que essas pessoas encontravam na Netflix ou no Facebook. Um número que poucas empresas de consumo chegam a exibir convivia, na cabeça de quem ali trabalhava, com a convicção de que o trabalho ainda estava por ser feito.

A história serve, para mim, de correção de pergunta. Quando uma empresa quer saber se tem product-market fit, espera um sim ou um não, e quem responde com a verdade precisa perguntar de volta a que grupo a pergunta se refere. A resposta muda de linha para linha.

Um grupo de cada vez

Lenny entrevistou mais de vinte fundadores de empresas de software para empresas e, entre as surpresas que anota, está a de que muitos nunca sentiram o encaixe por inteiro. Tomer London, da Gusto, resume: “Nunca senti, em momento algum, que agora eu tinha product-market fit.” Ali Ghodsi, da Databricks, conta que, mesmo com 100 milhões de dólares de receita, temia bater numa parede e parar, porque o encaixe vale para um mercado de cada vez: as empresas pequenas podem não querer o produto, um mercado pode querer e outro não, e, quando a empresa se torna de vários produtos, o jogo recomeça. David Hsu, da Retool, lembra que cada um dos cem primeiros clientes parecia o último que conseguiriam. Rick Song, da Persona, diz que o encaixe se desfaz a cada rodada de investimento, porque a rodada seguinte eleva a barra que passa a ser exigida dele.

Jori Lallo, cofundador da Linear, descreve o caminho da empresa como tão gradual que quase o chamaria de linear, e o trocadilho com o nome da casa esconde uma ideia séria: a empresa jamais transpôs um morro, foi desgastando obstáculos um a um, à medida que mais segmentos se interessavam. Lenny tira a consequência em uma linha que merece ser copiada na parede de toda diretoria: “Pare de pensar no encaixe como uma pergunta de sim ou não”, e passe a tratá-lo como o processo de encontrar encaixe com mais segmentos do mercado. Dá trabalho, e o trabalho é esse.

A escada, em duas dimensões

O artigo oferece, ainda assim, uma escada de cinco degraus, e ela ajuda justamente porque admite o que falta. Primeiro, um cliente que ame o produto. Depois, um que pague uma quantia que importe, de cinco a seis dígitos por ano. Em seguida, mais de um cliente que ame e pague, e para a maioria dos fundadores a sensação de encaixe veio com três a dez clientes pagantes. O quarto degrau é a passagem do empurrar ao ser puxado, com crescimento orgânico, e o quinto é crescer de modo consistente. Os textos dos dois últimos ficam atrás do muro de assinatura, e falo apenas dos títulos deles. O erro inverso ao de não sentir também aparece na entrevista: Dylan Field, do Figma, segundo a citação de Lenny, diz que o produto já tinha encaixe havia cerca de um ano quando a Microsoft, cliente, avisou que era hora de cobrar, e que teria agido de outro modo se o tivesse reconhecido antes. Quem espera o sentimento pode chegar tarde ao que já possui.

Minha leitura acrescenta uma dimensão nova. Cada degrau vale para um segmento, de modo que a escada de Lenny é, numa empresa que já tem clientes, uma matriz, com os segmentos nas linhas e os cinco degraus nas colunas. Nenhum dos fundadores usou a retenção como sinal, segundo o próprio Lenny, e suponho que seja porque estavam no começo e não tinham base de medida. Quem já tem base pode trocar o palpite pelo registro: quantos dos clientes de cada segmento voltaram, pagaram duas vezes, chegaram sem ser empurrados.

A matriz, porém, cobra dois preços que conheço dos casos que escrevi antes. O primeiro é o relógio. Em O preço de tudo, o procedimento de alto ticket tinha o ciclo mais longo da operação, da primeira conversa à venda, e a coluna de quem paga, para um segmento assim, só amadurece depois dele; julgar o encaixe em poucas semanas é avaliar a safra antes da colheita. O segundo é o registro. O quarto degrau pede saber de onde o cliente veio, e em Dois relógios o campo de origem estava preenchido em 4,14% dos cadastros, o que deixaria sem origem 95,86% dos cadastros que alimentariam a quarta coluna. Quem nessas condições declara sentir o encaixe está confundindo o faturamento com um quadro preenchido.

Gravura em preto e branco de uma escada em arco: à esquerda, um bebê no berço e uma criança; depois, um homem em cada degrau, vestido de modo diferente e com um animal ao lado, subindo até o centro, onde está o mais alto, e descendo em seguida até um velho apoiado num bastão e um moribundo deitado à direita; sob o arco central, uma cena do Juízo Final; letras e cartelas em alemão preenchem os cantos.
Gerhard Altzenbach, As onze idades do homem, 1609 a 72. Gravura. The Metropolitan Museum of Art, Nova York. Domínio público (CC0), via Met Open Access.

Onze degraus

Na gravura de Gerhard Altzenbach, o que o quadro de Dossi apenas sugere aparece com clareza: a vida é uma escada em arco, com um personagem para cada dez anos, dos dez aos cem, e as crianças pequenas ao pé; cada um tem roupa e postura próprias, e quase todos trazem um animal ao lado. Ninguém confundiria o rapaz de vinte com o de sessenta, e ninguém pensaria em perguntar a um deles se a humanidade o aprova. A escada sobe até o centro e desce depois, de sorte que o degrau do topo já é o primeiro da descida; fico com a parte que serve à conversa, que é a de que cada degrau pede uma língua.

O grupo que falta, dizia Mehrotra, é o que a empresa mais quer, e a frase merece uma reserva que o entusiasmo de fundador esquece com facilidade. Nem todo degrau vizinho vale o custo de ser subido, e a empresa tem capacidade limitada para aprender mais de uma língua a cada rodada. Escolher o próximo segmento é decisão de quem paga a conta, e a matriz serve para torná-la visível. Três perguntas bastam antes de subir: quem, dentro do segmento atual, já paga sem ser empurrado; quanto tempo o relógio do novo segmento exige para dar resposta; e quem na empresa responde por ele. Com elas na mesa, dá para ver, por exemplo, que o segmento mais barato de conquistar é o que menos devolve, como já mostrou o caso do lead mais barato, e que o mais caro tem o ciclo mais longo e as colunas ainda vazias.

O encaixe nunca vem inteiro, vem por grupo, e cada grupo tem o seu degrau.

A clareira vista de fora

Quem nunca sentiu o encaixe inteiro talvez tenha passado os anos perguntando com quem o tinha. A empresa que já fatura pode fazer melhor e trocar o sentimento por um quadro de segmentos e degraus, atualizado no relógio certo e conferido, coluna a coluna, por quem responde por ela. Em termos de Dois relógios, cada célula da matriz pede o contrato de cinco campos que propus ali, com definição operacional, fonte primária, relógio, maturidade e dono; sem ele, a célula é opinião preenchida com algarismos. No quadro de Dossi, cada grupo parece ocupado com a sua hora, e quem vê os três de uma vez é quem olha de fora; nenhuma empresa tem esse privilégio sem montar, antes, a própria planilha de segmentos.

Qual grupo a empresa diz procurar e ainda não tem?

Fonte: Lenny Rachitsky, “A guide for finding product-market fit in B2B”, Lenny’s Newsletter, 12 de setembro de 2023.

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