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Ensaio · Gestão de produto

Errata

Pela contagem deste ensaio, metade dos dez arrependimentos de Marty Cagan é o que ele deixou de dizer, e as empresas obedeceram ao silêncio. Todo documento de produto merece a sua errata.

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Claude ChatGPT
Pintura: um homem de barba branca e auréola, de manto vermelho, sentado a uma escrivaninha estreita numa cela de pedra com abóbada de caixotões, escreve com uma pena, os olhos baixos; à esquerda, uma cortina amarela recolhida; no chão, à frente dele, pedaços de papel espalhados.
Sandro Botticelli, Santo Agostinho em sua cela, c. 1495. Têmpera sobre madeira. Galleria degli Uffizi, Florença. Domínio público, via Wikimedia Commons.

“Em vista de tudo o que mudou, quais são as coisas que você costumava defender como verdadeiras e em que já não acredita?”

Pergunta feita a Marty Cagan, citada em Strong Opinions, Loosely Held, SVPG, 11 de setembro de 2026

O bispo revê a obra

Por volta de 426 e 427, já no fim da vida, Agostinho de Hipona releu a própria obra em ordem cronológica e escreveu, livro por livro, o que diria de outro modo.1 O título do trabalho, as Retractationes, costuma sair em português como retratações, e engana, porque o latim diz, em sentido literal, retratamentos: a obra é reexaminada e não renegada, com o autor a apontar onde se expressou mal e onde hoje falaria diferente.

Botticelli pintou o bispo numa cela de pedra, a escrever, e espalhou pelo chão pedaços de papel. Não sei o que quis dizer com eles, e nenhuma leitura minha o prova, mas me servem de imagem: todo autor produz mais papel do que obra, e quase nunca mostra o que jogou fora.

Lembrei do bispo ao ler a versão narrativa da palestra em que Marty Cagan, da SVPG, tenta responder a uma pergunta que, segundo ele, não lhe saía da cabeça: o que dizia antes e já não sustenta. Cagan traçou a linha na primeira edição de INSPIRED, de 2008, escrita depois de 25 anos de ofício, e listou dez coisas que aprendeu desde então e que mudam, de modo significativo, o que ele havia defendido publicamente.2 A lista é longa para um ensaio só. O que me interessa nela é um padrão que o próprio Cagan não nomeia.

O que o método deixava de fora

Cinco dos dez itens são, pelas palavras dele, coisas que o método omitiu ou tratou como menores; a contagem é minha, e outro leitor poderia chegar a quatro ou a seis. Na primeira edição de INSPIRED, os riscos de um produto eram valor, usabilidade e exequibilidade, e a viabilidade de negócio vinha escondida sob a última; só dez anos depois, na segunda edição, ganhou lugar próprio, e nesse intervalo centenas de milhares de profissionais ouviram dele uma visão unilateral do papel. A omissão custou em proporção à plateia. “Subestimei por completo a importância da viabilidade de negócio”, escreve.2 Cagan dá também a explicação de ofício: quase toda a sua carreira até ali se passara em ferramentas e plataformas para desenvolvedores, um dos raros lugares em que se escapa impune com pouco saber de negócio.

A liderança de produto ficou de fora por escolha deliberada, com consequências que ele não previu, pois as empresas entenderam que bastava montar os times como no livro. A política foi ignorada na esperança de que o bom trabalho bastasse. A governança da empresa parecia assunto alheio ao líder de produto, e a concorrência foi descrita com mais cortesia do que ela tem.

Escrevi em O preço de tudo que especificar é decidir o que o sistema tem permissão de ignorar. A frase vale para o livro de Cagan: um método publicado é uma especificação para organizações, e uma organização obedece ao que lê com a fidelidade do otimizador de anúncios, que fez exatamente o que mandaram. O que a especificação cala, ela autoriza a ignorar. Quem entrega um documento a um agente de IA, que não tem a cultura da casa para preencher o silêncio, escreve o mesmo livro para um leitor menos caridoso, ao menos é o que suponho.

Como a mensagem foi ouvida

Os outros itens tratam da recepção. Cagan conta que o principal que muita gente tirou dos textos dele foi a ideia de que precisava ser o “CEO do produto”, mensagem que dificilmente se chamaria de humilde. Conta também que, ao estruturar o livro em pessoas, processo e produto, alimentou sem querer a fome de processo de quem prefere não pensar. “Processo, muitas vezes, é de fato usado como substituto do pensamento”, escreve.2 O autor que escolhe o título de uma seção escolhe também o cartaz que a leitura apressada vai levar para casa.

Entre os artefatos mais típicos do ofício, Cagan aponta dois pelo nome, o roadmap e o PRD, e pergunta o quanto eles ajudam “a pensar que sabemos mais do que de fato sabemos”.2 Para um Product Owner a frase incomoda, porque esses são os documentos que ele mais escreve. O texto que sai da mão de quem especifica é lido por quem decide, por quem constrói e, cada vez mais, por uma máquina, e o leitor fica com o título, a primeira seção e o slogan. O resto fica no papel.

Tiro daí um teste simples, que nasce da confissão de Cagan e não vem de experiência minha com ela: ao fechar um documento de produto, perguntar o que um leitor apressado levará dele e qual omissão esse leitor vai tomar por licença. O teste custa pouco.

Diagnóstico e remédio

Outro item da lista fala do lugar em que as equipes gastam o tempo. Cagan conta que sempre separou a descoberta do problema da descoberta da solução, e que não previu a força com que as pessoas se deixariam atrair pela primeira, a ponto de se tomarem por guardiãs de saber se existe um problema digno de ser resolvido, sobrando pouco tempo para a solução. Muitas vão além e se perguntam se aquele é o problema mais importante a resolver, o que ele chama de pergunta infrutífera e sem resposta: tudo o que se pode saber é que o problema é real e vale a pena. Quando um produto fracassa, sustenta ele, quase sempre foi porque a solução do time não era boa o bastante; parece que faltava cliente com o problema, até que alguém aparece com uma solução melhor e a causa fica constrangedoramente clara.

Na operação que contei em O preço de tudo, o diagnóstico estava certo e o remédio é que fui superestimar: o sinal de valor que eu tinha especificado resolvia a proporção entre conversas caras e baratas, sem resolver sozinho o custo de aquisição. O custo por conversa, esse, media com exatidão, e o erro foi deixá-lo sozinho na tela. Um caso não prova nada; este, porém, não contradiz o que Cagan diz da solução, porque o sinal de valor era a solução e foi ela que errou de tamanho, e a correção veio de procurar o teste que podia contradizê-la.

Errata como método

O ponto que mais me interessa na confissão é o modo de trabalho que ela revela. Cagan diz que trata o próprio conteúdo como produto, e que faz, toda semana, descoberta de produto sobre ele. Vista assim, a errata é o que uma empresa chamaria de entrevista de churn, a conversa com quem deixou de usar. Coincide com o que ele considera o “porquê” mais importante, aquele que as equipes quase nunca perguntam: por que as pessoas continuam usando o produto, ou deixam de usá-lo. Ele conta que raramente alguém o procura, depois de abandonar um produto que testou, para saber o motivo.

Quem faz produto deveria aceitar a disciplina que aplica ao cliente. No caso que acabo de contar, achei o erro porque a hipótese estava escrita antes, com fonte e nível de evidência, e porque fui atrás do teste que podia me contradizer. A errata, ali, já existia antes do erro, na forma de uma hipótese datada, e faltava só o dia em que a evidência a contrariasse.

Proponho, como costume de ofício, que todo documento de produto termine com duas seções curtas. A primeira lista o que ficou de fora e por quê, isto é, o silêncio que o leitor poderá tomar por licença; a segunda lista o que acreditamos hoje e qual dado o desmentiria, e deixa espaço para a data em que isso acontecer. Nenhuma das duas pede ferramenta nova; pedem a coragem pequena de escrever, no dia da aprovação, o ponto em que o texto é mais frágil.

Seguro com frouxidão

O título do texto de Cagan traz uma fórmula conhecida, e a dificuldade dela está na segunda metade. Segurar uma opinião com frouxidão costuma ser tratado como traço de temperamento, e o que a confissão de Cagan mostra é que se trata de um lugar concreto, um arquivo datado em que a opinião pode ser corrigida sem que ninguém precise fingir que nunca a teve.

A frouxidão com que se segura uma opinião mede-se pelo tamanho da errata que ela admite.

Cagan conclui que, mesmo com esses erros, o conteúdo nunca foi tão relevante, e o argumento é dele: não me cabe avaliá-lo. O método, esse eu reconheço, e é o de Agostinho, a obra relida em ordem e o que resiste à releitura mantido com mais crédito do que antes. Sobra o desconforto de ser o primeiro a procurar, no próprio documento, o que ele deixou de dizer.

Que a primeira linha da errata fique em branco no dia da aprovação, e seja escrita no dia em que o dado a exigir.

Fonte: Marty Cagan, “Strong Opinions, Loosely Held”, SVPG, 11 de setembro de 2026.


  1. Verbete “Bibliography of Augustine of Hippo”, Wikipedia: por volta de 426-427, já no fim da vida, Agostinho revisitou suas obras em ordem cronológica nas Retractationes; o título, frequentemente traduzido por “retratações”, significa literalmente “re-tratamentos”, e a obra traz pouca retratação de fato: o autor sugere o que teria dito de outro modo. A pintura que abre o ensaio é de Sandro Botticelli, conservada na Galleria degli Uffizi (Yorck Project, domínio público via Wikimedia Commons). ↩

  2. CAGAN, Marty. “Strong Opinions, Loosely Held”. SVPG, 11 de setembro de 2026. https://www.svpg.com/strong-opinions-loosely-held/. Versão narrativa de uma palestra para o Lenny & Friends Summit. Todas as citações de Cagan neste ensaio são traduções minhas do inglês. ↩↩↩↩

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