Ensaio · Software vertical e IA
A hora do dono
No mercado pequeno, a folha que o software promete substituir é curta demais para sustentar o preço; o que há para vender é a hora que ninguém registra, a do dono.

“Quanto posso cobrar de uma lavanderia por um software?” [...] “Como posso mirar o gasto com trabalho usando IA?”
Angela Strange, James da Costa e a equipe de empresas da a16z, “AI Inside” Opens New Markets for Vertical SaaS, 2 de dezembro de 2024A lavadeira
Daumier pintou uma lavadeira que desce a escada do cais com a trouxa de roupa apoiada no quadril e uma criança pela mão. Na mesma descida ela faz dois trabalhos, e só um deles teria preço numa conta de salários; o outro não consta de folha nenhuma, e nem por isso deixa de ocupar o corpo dela.
Lembrei dela ao ler o segundo de uma série de três textos em que Angela Strange e James da Costa, com a equipe de empresas da Andreessen Horowitz, examinam o software vertical.1 A tese é que a IA torna grandes os mercados que a fundadores e investidores pareciam pequenos demais para sustentar uma empresa: a quiropraxia, as lavanderias, as veterinárias, e boa parte dos mais de 600 setores da classificação industrial americana, que ainda não receberam software à sua medida. Há duas frentes. Uma é aumentar o valor de cada cliente, porque o software passa a substituir trabalho e não apenas a ajudá-lo; a outra é baixar o custo de conquistá-lo, porque a própria IA vende e faz marketing.
A conta dos autores
O raciocínio é simples e a aritmética, limpa. Imagine-se um mercado de 10 mil clientes que pagam mil dólares por mês pelo software, pagamentos incluídos: dá cerca de 120 milhões de dólares por ano, “não muito interessante”, segundo os autores. Agora imagine-se que o fornecedor conquiste os orçamentos de vendas, marketing, atendimento e retaguarda financeira desses clientes e passe a cobrar 10 mil por mês: o mercado sobe para 1,2 bilhão, o bastante para justificar uma empresa. A pergunta que eles propõem aos fundadores é deixar de imaginar o que cobrar de uma lavanderia por um programa e passar a imaginar como mirar o gasto com trabalho.
Para testar a hipótese, puxaram os 620 setores da classificação americana e juntaram a cada um dados como número de empresas, de empregados, gasto com trabalho e receita por empregado. Três saíram em destaque: as lavanderias, com 18 mil estabelecimentos que gastam 2,7 bilhões de dólares com 130 mil empregados; os consultórios de quiropraxia, com 38 mil estabelecimentos, 4,5 bilhões e 140 mil empregados; as veterinárias, com 28 mil, 13,8 bilhões e 356 mil. Vistos pela folha, e não pelo preço do programa, os três mercados crescem.
Os autores ainda separam os casos pela receita por empregado. Onde ela é alta, como nas veterinárias, com 116 mil dólares, cabem copilotos que ajudam profissionais caros a render mais; onde é baixa, como nas lavanderias, com 60 mil, cabe a automação direta das tarefas administrativas por agentes; a quiropraxia, com 97 mil, fica no meio do caminho. A distinção importa para o que vem a seguir, porque é nos setores de receita baixa por pessoa que o espaço para cobrar é mais estreito.
A conta por estabelecimento
Basta dividir os números deles por estabelecimento para ver outra coisa. Os 10 mil por mês do exemplo são uma ilustração, e os autores não os atribuem a nenhum dos três setores, de modo que o que segue é um teste meu com os dados que eles mesmos publicaram.
| Setor | Estabelecimentos | Pessoas por estabelecimento | Folha por estabelecimento, por mês | Parcela da folha que valeria 10 mil por mês |
|---|---|---|---|---|
| Lavanderias | 18 mil | 7,2 | US$ 12,5 mil | 80% |
| Quiropraxia | 38 mil | 3,7 | US$ 9,9 mil | 101% |
| Veterinárias | 28 mil | 12,7 | US$ 41,1 mil | 24% |
Num consultório de quiropraxia médio, a folha inteira, incluídos os quiropraxistas, é de 9,9 mil dólares por mês. Dez por cento dela são 987 dólares, praticamente os mil por mês do mercado que os autores chamaram de pouco interessante; para chegar aos 10 mil, o fornecedor teria de ficar com a folha toda. Nas lavanderias a exigência cai para 80%, e só nas veterinárias para 24%. A aritmética do tamanho do mercado sobrevive, porque 10% de 4,5 bilhões são 450 milhões, acima dos 120 do cenário pequeno. O que não sobrevive é o preço por cliente: cada estabelecimento tem uma folha curta, e uma fração dela não sustenta a fatura que a tese supõe. Não sei qual parte dessa folha é retaguarda, e os autores não a separam.
A hora que não consta
Desconfio de que o valor mais barato de comprar nesses negócios esteja fora da folha. Num estabelecimento de quatro pessoas, o dono é uma delas, e as horas que ele gasta com cobrança, mensagens e fechamento do mês, quando as gasta, não aparecem como salário, e não sei se os dados dos autores o contam entre os empregados. O economista russo Aleksandr Tchaiánov notou nos anos 1920 que a família camponesa não raciocina como a empresa que paga salário, porque o trabalho dela não tem preço de mercado; ela o intensifica até o esforço a mais pesar mais que o ganho a mais, e ele chamou isso de autoexploração.2 Um pequeno negócio de dono presente guarda algo dessa lógica: a hora dele não entra como custo em lugar algum, e por isso ninguém a vê sendo gasta. Se o produto deve devolvê-la, tem de entregar coisas que se notem na semana dele, como a mensagem respondida fora do expediente, a cobrança feita no dia certo e o mês fechado sem que ele abra uma planilha.
A hipótese corre um risco, e convém nomeá-lo. O dono que dá pouco valor à própria hora não pagará por ela, e nenhum cálculo de horas devolvidas o convence de que algo vale dinheiro se ele nunca o contou como dinheiro; se for esse o caso da maioria, o mercado pequeno continuará pequeno, e a tese dos autores perderá sua parte mais generosa. Só a conversa com donos reais, feita antes de construir, separa um caso do outro, e três perguntas bastam para começar: quantas horas por semana vão para tarefas que o software poderia assumir, quanto ele pagaria para reavê-las e o que faria com elas, porque uma hora devolvida que vira descanso vale para o dono, mas não vira receita para ninguém, e o fornecedor precisa saber de qual das duas espécies está vendendo.
Os próprios autores, sem o dizer, dão o exemplo que a apoia. Falando da queda no custo de aquisição, lembram que a maioria das empresas de gestão de patrimônio atende o telefone de segunda a sexta, e que os clientes em potencial têm tempo para falar de dinheiro nos fins de semana; agentes de voz podem ocupar esse vazio. Nenhum salário foi substituído nessa história. Uma hora que ninguém cobria passou a ser coberta, e o ganho está na venda que antes se perdia.

O que isso pede de quem constrói
Se a hipótese estiver certa, o preço do software para o negócio pequeno não pode ser âncorado no salário que ele substitui, porque esse salário é curto ou não existe. Ancora-se no valor da hora devolvida ao dono ou da venda recuperada, e para isso é preciso saber quantas horas são, o que começa por uma tarefa modesta: pedir ao dono que anote a própria semana, durante duas semanas, e contar, sem modelo de linguagem nenhum, quantas horas foram para cada tipo de serviço. O custo de aquisição de O preço de tudo mostrou que uma fração só se melhora quando cada termo é conhecido; a hora do dono é o termo que quase nunca consta.
O argumento também avisa quem vende. Um pitch que promete cortar pessoal tende a soar, num negócio pequeno, como ameaça a quem trabalha ali. Um pitch que devolve a noite e o domingo fala de uma coisa que o dono sabe avaliar sem planilha.
O mercado pequeno cresce onde houver hora a devolver; o salário a substituir, nele, é pouco. Degas pintou uma passadeira sozinha, e na tela não há ninguém a quem ela pudesse passar o ferro. Para os donos que o mercado de software chama de cauda longa, o programa vale o que custa se lhes devolver a hora que não tinham.
O que o software tem a devolver ao negócio pequeno é a hora que nunca esteve na folha.
Quanto vale, afinal, a hora de quem não tem folha?
Fonte: Angela Strange, James da Costa e a16z Enterprise Team, “‘AI Inside’ Opens New Markets for Vertical SaaS”, a16z, 2 de dezembro de 2024.
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STRANGE, Angela; DA COSTA, James; a16z Enterprise Team. “‘AI Inside’ Opens New Markets for Vertical SaaS”. Andreessen Horowitz (a16z), 2 de dezembro de 2024. https://a16z.com/vsaas-vertical-saas-ai-opens-new-markets/. As citações são traduções minhas. Os números dos três setores (classificação NAICS 81232, 62131 e 54194) são os do texto dos autores, que os dão como de 2022. A tabela e os percentuais de 80%, 101% e 24% são cálculo meu, deterministicamente derivado dos números dos autores (folha total dividida pelo número de estabelecimentos e por 12; 10 mil dividido pelo resultado); o exemplo de 10 mil dólares por mês é ilustração dos autores, não dado de setor. A pintura de Daumier é o objeto 436091 do Metropolitan Museum of Art, e a de Degas, o objeto 436174. ↩
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CHAYANOV, A. V. The Theory of Peasant Economy. Organizado por Daniel Thorner, Basile Kerblay e R. E. F. Smith. Homewood: Richard D. Irwin, 1966; original russo de 1925. A noção de autoexploração do trabalho (self-exploitation) é central na obra. A aproximação com o pequeno negócio é minha. ↩
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