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Ensaio · Plataformas e agentes

Lugar marcado

Quando o agente opera o sistema sem tela, a licença por usuário cobra uma cadeira que ninguém ocupa, e a unidade que a substituir vai virar a meta de quem fornece.

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Claude ChatGPT
Pintura de uma nave de igreja gótica vista de lado: pilares claros e arcos altos, uma abóbada de madeira pintada, um órgão sobre uma galeria de arcos de mármore rosado e janelas de vitral ao fundo; o piso de pedra está inteiramente vazio, sem bancos e sem pessoas.
Pieter Jansz. Saenredam, Interior da Sint-Pieterskerk, 's-Hertogenbosch, 1632. Óleo sobre madeira. The Metropolitan Museum of Art, Nova York. Domínio público (CC0), via Met Open Access.

“A Salesforce está abandonando a interface como fosso, o que é um movimento muito inteligente, porque ela está desaparecendo para todos.”

Ben Thompson, Salesforce AI Force, Agents as UI, The Race to Headless, Stratechery, 16 de setembro de 2026

O banco que se alugava

Até o começo ou o meio do século XX, em igrejas anglicanas, católicas e presbiterianas, a família que quisesse o mesmo lugar todos os domingos alugava o banco, e nos Estados Unidos, onde nenhum dízimo obrigatório sustentava o culto, esse aluguel foi uma das principais fontes de renda das paróquias.1 A madeira valia pouco e a posição valia muito, porque a disposição dos bancos exibia a condição social de cada família; cobrava-se pelo lugar, portanto, e o serviço, que era a missa, vinha junto com ele.

Lembrei dos bancos ao ler a frase que o Stratechery deixa aberta no texto de 16 de setembro, em que Ben Thompson escreve sobre o que a Salesforce faz com os agentes.2 A frase basta para a tese, que está na epígrafe acima: a interface deixa de ser fosso porque desaparece para todo mundo. O resto do texto é para assinantes, e parto do que está aberto. Interessa-me a consequência que a frase deixa em suspenso, e que é minha, não dele: o que acontece com o preço.

O fosso e a cadeira

A interface funcionou como fosso porque prendia gente. Quem aprendeu os menus de um sistema, montou nele os seus relatórios e decorou os atalhos carrega um custo de saída que mora na cabeça e nas mãos, e o fornecedor sabe disso; a primeira linha da proposta costuma ser o número de usuários. O fosso e a cadeira eram a mesma coisa vista de dois lados: a empresa pagava por cada pessoa sentada diante da tela, e cada pessoa sentada diante da tela era um pouco mais difícil de desalojar.

No Brasil, a cadeira já vinha sendo esvaziada pela janela de mensagem. Como anotei em Cenário descartável, a conversa com o cliente já acontece no WhatsApp, e a tela do sistema fica sendo o lugar aonde alguém volta depois para registrar o que já foi dito na conversa. Quem faz esse registro ocupa a cadeira; se o agente o faz sozinho, a cadeira perde o ocupante sem que nada no atendimento tenha piorado.

Nada disso alcança um agente que atende cem conversas de WhatsApp e atualiza o registro de cada uma. Ele entra pelos fundos do sistema, por interfaces de programação, e ocupa zero cadeiras; se o produto nasceu para ser vendido por cadeira, o agente é um freguês que consome sem aparecer na conta. Abrir mão da tela parece-me, então, preferir vender o que passa pela porta dos fundos a defender o salão. Há nisso uma lógica que independe de gosto: um fornecedor que cobra por cadeira é punido pelo próprio sucesso. Se o agente assume o trabalho de quatro entre dez atendentes, o cliente cancela quatro licenças, e a receita do fornecedor cai justamente porque o produto funcionou; quem vende cadeira acaba, cedo ou tarde, desencorajado a melhorar aquilo que faz a cadeira sobrar. Não sei como a Salesforce vai cobrar, e duvido que alguém já saiba. Sei que, desaparecida a cadeira, alguém terá de escolher uma unidade nova, e quem a escolhe decide o que a empresa paga e também o que o fornecedor passa a ter interesse em produzir.

A unidade vira meta

As candidatas são conhecidas: cobrar por ação do agente, por conversa atendida, por resolução. Cada uma tem a virtude de acompanhar o trabalho e o defeito de transformar-se no alvo dele. Contei em O preço de tudo como um otimizador cumpriu com perfeição uma pergunta que ninguém deveria ter feito, porque recompensávamos a conversa esperando a receita. A mecânica é a mesma, com um agravante: o otimizador agora é também o fornecedor, e a palavra “resolvida”, que define a fatura, define ainda se o cliente da empresa foi bem atendido. Uma conversa que termina porque a pessoa se cansou de esperar cabe, num contador ingênuo, na categoria dos problemas resolvidos. Na cobrança por conversa atendida, o interesse do fornecedor é que haja muitas conversas; na cobrança por resolução, que muitas apareçam como resolvidas; em nenhuma das duas está escrito que o cliente da empresa saia satisfeito.

O contrato de cinco campos que propus em Dois relógios para os números da diretoria serve igualmente ao contador da fatura. A definição operacional diz o que exatamente se cobra. A fonte primária tem de ser o registro da empresa e nunca o do fornecedor, porque um contador que mora na casa de quem cobra é suspeito por construção. O relógio estabelece quando a conversa passa a valer como resolvida, se no ato ou depois de um prazo sem reabertura. A maturidade diz a partir de quando a cobrança deixa de poder ser contestada, e o dono é uma pessoa da empresa, com nome, a quem se pergunta quando a fatura surpreender.

O preço por usuário media quanta gente havia na sala; o preço por trabalho vai medir o que alguém aceitar chamar de trabalho.

O teto que a cadeira dava

Havia na cobrança por cadeira uma virtude que só se percebe quando ela some: a conta tinha um teto natural, porque gente é finita, lenta e cansa. Quinze usuários custavam quinze licenças, e para a conta dobrar seria preciso contratar mais quinze. O agente não cansa, e uma cobrança por ação cresce na velocidade da máquina, de sorte que um laço mal escrito, um cliente furioso com vinte mensagens ou uma campanha que traz mais conversa que o previsto podem dobrar a fatura numa tarde, sem que ninguém tenha se sentado em lugar algum. A defesa é antiga e dispensa tecnologia: um teto mensal em contrato, com alerta ou corte automático, e a pergunta, feita antes de assinar, sobre quem paga o que o agente consumir por engano.

Pintura de um interior de igreja gótica com colunas brancas muito altas; em primeiro plano, duas crianças de chapéu olham para a base de um pilar; ao fundo, dois homens de casaco conversam e dois cães descansam no piso de pedra; um lustre de bronze pende à esquerda e um escudo heráldico está preso a uma coluna.
Emanuel de Witte, Interior da Oude Kerk, Delft, provavelmente 1650. Óleo sobre madeira. The Metropolitan Museum of Art, Nova York. Domínio público (CC0), via Met Open Access.

O aluguel de bancos terminou quando o preço do lugar passou a ser visto como o que era. A controvérsia cresceu na Igreja da Inglaterra nas décadas de 1840 e 1850, em 1866 fundou-se uma associação para combatê-lo, a Free and Open Church Association, e várias paróquias anglo-católicas nasceram nessa época como igrejas livres e abertas, definidas pela ausência de aluguel.1 Dessa história tiro uma regra de ofício. O preço de uma coisa parece natural enquanto a unidade de cobrança coincide com algo que todos enxergam, e só entra em discussão quando essa coincidência se desfaz; é o que vai acontecer com as licenças de software, e quem compra faria bem em discutir a unidade antes de discutir o desconto.

Quatro perguntas antes de assinar

Para quem compra, a consequência prática cabe em quatro perguntas, que valem para qualquer contrato de agente e se fazem numa reunião. Qual é a unidade de cobrança, dita numa frase que um leigo entenda? Onde mora o contador, no sistema da empresa ou no do fornecedor, e quem pode auditá-lo? Qual é o teto mensal, e o que acontece quando o agente o atinge, se ele para, se avisa ou se continua e cobra? E, por fim, o que sobra da licença por usuário, porque alguns humanos continuarão diante do sistema, e convém saber se cada um deles custa o mesmo de antes, ainda que agora supervisione em vez de operar.

Nenhuma das quatro exige conhecimento técnico, e todas são difíceis de fazer depois da assinatura. O comprador tem poder de barganha enquanto a unidade está em aberto, e o fornecedor, que precisa reescrever o modelo de preço, tende a defini-lo a seu favor.

Quem ainda se senta

Resta uma cadeira, e convém não a perder: a de quem confere. O agente que trabalha sem tela produz um trabalho que alguém ainda precisa olhar, e olhar exige uma superfície, ainda que montada na hora, como sustenta Cenário descartável, onde a tela era também o lugar em que alguém desconfiava. A licença que sobrevive é a do auditor, e talvez seja a única que valha pagar sem regatear.

Na nave que Saenredam pintou em 1632 não há banco nenhum, e nada falta à igreja que ele quis mostrar: os arcos, o órgão, os vitrais, a abóbada pintada. É a imagem que uso para o sistema sem tela. O prédio continua de pé, a cobrança por lugar perde o objeto, e a empresa que compra terá de aprender a perguntar o que, exatamente, está sendo contado.

O que se vai pagar, quando ninguém se sentar?

Fonte: Ben Thompson, “Salesforce AI Force, Agents as UI, The Race to Headless”, Stratechery, 16 de setembro de 2026.


  1. Verbete “Pew”, Wikipedia, seção sobre o aluguel de bancos (pew rental): a prática era comum até o começo ou o meio do século XX em igrejas anglicanas, católicas e presbiterianas; foi meio importante de arrecadação, sobretudo nos Estados Unidos, onde as igrejas não tinham dízimo obrigatório; servia para exibir a posição social na paróquia; foi alvo de controvérsia nas décadas de 1840 e 1850, e a Free and Open Church Association foi fundada em 1866 para combatê-la. A nave de Saenredam é o objeto 928532 do Metropolitan Museum of Art; a de De Witte, o objeto 438490. ↩↩

  2. THOMPSON, Ben. “Salesforce AI Force, Agents as UI, The Race to Headless”. Stratechery, 16 de setembro de 2026. https://stratechery.com/2026/salesforce-ai-force-agents-as-ui-the-race-to-headless/. A epígrafe é a frase de abertura do texto, a parte pública; o restante é restrito a assinantes do Stratechery Plus. A tradução é minha. ↩

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