ANÁLISE DE BLOG · ESTRATÉGIA DE PRODUTO
O mastro
A primeira receita de uma empresa costuma chegar com uma condição, e só diz não quem amarrou a decisão antes de ouvir a proposta.
Análise de: How Product Strategy Fails in the Real World: What to Avoid When Building Highly-Technical Products, Nate Stewart, First Round Review, 26 de setembro de 2022
Temas: estratégia de produto · gestão de produto

A corda antes do canto
No canto XII da Odisseia, Circe avisa Ulisses do que o espera na ilha das sereias e lhe ensina o expediente: os companheiros taparão os ouvidos com cera, e ele, que quer ouvir, irá atado ao mastro, com a ordem de que, se pedir para ser solto, o apertem mais.1 A corda precede o canto, e é por isso que funciona, pois ninguém que já esteja ouvindo tem juízo para decidir se quer continuar ouvindo.
Nate Stewart, diretor de produto da Cockroach Labs, conta numa entrevista como a empresa escolheu o que seria, e a escolha tem a forma da cena.2 Ela faz um banco de dados distribuído, e na origem havia uma bifurcação entre construir um sistema de análise, bom em agregar milhões de linhas, e um sistema transacional, bom em escrever e ler com segurança; escolheram o segundo, porque o que distingue o produto é a resiliência, e dois segundos de queda num banco de análises se resolvem apertando o botão de atualizar, ao passo que dois segundos num banco que sustenta pagamentos custam milhões.
O que me interessou, porém, foi a parte que as retrospectivas costumam alisar, e que Stewart deixa à mostra. Com a empresa ainda sem receita, grandes clientes diziam que dariam os primeiros 100 ou 200 mil dólares, mas só se o banco ganhasse capacidades analíticas. Ele não finge que a oferta era falsa: “É incrivelmente difícil dizer não às primeiras fontes de receita potencial de uma startup.” Não havia armadilha nenhuma, e o canto era verdadeiro, o que o tornava perigoso.
O que se amarra
Stewart diz que o alinhamento com os fundadores e com o time de receita em torno da tese transacional ajudou a dizer não a muita coisa que os aproximaria de concorrentes como a Snowflake. O mastro, portanto, foi um acordo prévio entre pessoas sobre o que a empresa é, firmado quando ninguém ainda fazia proposta alguma. Decidir depois, com o cheque na mesa, seria decidir como Ulisses ao ouvir as sereias, cheio de boas razões e sem nenhuma confiável.
Na Odisseia há uma tripulação de ouvidos tapados, e numa empresa não se tapam os ouvidos do comercial, que vive de ouvir cliente e, se não ouvisse, não serviria para nada. O que se faz é mexer em outra coisa, e o próprio Stewart aponta para ela quando explica por que a pressão por promessas de funcionalidade deve ser lida como sintoma: “Você também tem de examinar os incentivos de vendas, que tendem a ser mais focados no curto prazo.” Quem fecha a venda responde pelo trimestre e dificilmente pelo que virá depois dele, e uma promessa feita para fechá-la vira dívida de outro setor.
Na Cockroach, a recusa virou costume da casa. Stewart conta que os gerentes de produto e vendedores novos estranham a má vontade da empresa em prometer funcionalidade a um cliente específico, e ele compara a dificuldade à de fazer passar uma lei no Congresso. Um costume assim sobrevive a quem o criou porque se ensina pela própria dificuldade: quem chega aprende que o pedido de um cliente só se torna compromisso depois de atravessar um processo, e o processo, a meu ver, existe para ser mais lento do que o entusiasmo de quem vende.
Escrevi em O preço de tudo sobre a loucura de recompensar uma coisa esperando outra, e o desenho é o mesmo. Se a comissão premia a assinatura, a assinatura com condição é o resultado racional, e é ingenuidade esperar que o vendedor faça o papel da cera. Aqui a cera mora na regra e no que se paga, e ouvido nenhum precisa ser tapado.
Três nós na corda
A corda de Ulisses não tem exceção, e a da Cockroach tem, de propósito, três. Nos cinco anos de Stewart na empresa, segundo o texto, a Cockroach assumiu de cinco a seis compromissos de funcionalidade com clientes, e cada um passou por condições que ele resume assim: a primeira é que o item já estivesse no plano ou fosse melhor para a empresa do que o plano; a segunda, que a equipe tivesse como entregá-lo; a terceira, que a recompensa do outro lado fosse enorme, com um cliente que implantasse e crescesse de verdade. Essa primeira condição, nas palavras dele, dá a medida de todas: “Os compromissos com clientes são aceleradores do roadmap, não detratores.”
Entre a corda do herói e a da empresa há esta diferença. Ulisses enfrenta um perigo de cada vez, com instruções de quem conhece o caminho, ao passo que uma empresa enfrenta dezenas de ilhas sem guia, e uma proposta recusada hoje pode ser a travessia que a levaria a outro porto; por isso a corda precisa de nós que só se desfaçam por escrito, com critérios conhecidos de antemão. O nó existe para que a exceção custe alguma coisa, e quem a pede tem de provar que o item já estava no caminho.
Faço uma ressalva, que vale para o próprio Stewart. Circe sabia onde ficava a ilha e o que havia nela. Quem apostou na resiliência foi a Cockroach, e sem que ninguém lhe entregasse o mapa, e o texto admite o custo: clientes a quem se disse não foram para os braços de concorrentes, o que, segundo a entrevista, desanima quem não tem convicção no caminho escolhido. Corda nenhuma torna certa uma decisão; faz apenas que valha a que se tomou. Por isso a pergunta que o próprio Stewart manda repetir, o que precisa ser verdade para que esta estratégia dê certo, deveria vir antes do nó, pois amarrar-se a uma tese sem ter feito essa conta é dar ao erro uma corda muito boa.
Convém dizer que o próprio Stewart não conta a história como limpa. Segundo ele, a escolha pelo banco transacional foi controversa dentro do time, e a versão que se repete hoje alisa as arestas da época, em que ainda faltava receita e sobrava cliente grande disposto a pagar pelo que a empresa decidira não ser. Essa franqueza me parece o dado mais útil do texto, porque tira da decisão a aparência de clarividência e a devolve ao que ela foi, uma aposta mantida contra a pressão do dinheiro.
A encomenda condicionada
Em empresa pequena, a frase tem versões locais. Frases do tipo fechamos se tiver integração com o nosso sistema, assino se o relatório sair do jeito que a diretoria pede ou pago a entrada, mas a tela tem de ser esta são exemplos construídos para este ensaio, sem testemunha nenhuma por trás. A forma, porém, é previsível, porque o cliente-âncora, o primeiro e o maior, tem mais poder de pedir do que a empresa tem de recusar, e o produto que nasce de três pedidos assim é um arquivo de concessões, de difícil manutenção e sem dono.
O texto propõe ler a repetição do pedido como sinal sobre a própria empresa: se o time de vendas sente que precisa esticar o produto, vale olhar toda a operação comercial, os clientes que chegam ao funil e o modo de posicionar o que se vende, e a repetição pode indicar que falta encaixe entre produto e mercado. Uma proposta condicionada aparece como oportunidade na primeira vez; repetida, já indica que a empresa e o mercado não estão falando da mesma coisa. Nesse caso a corda deixou de ser o remédio, porque a pergunta passou a ser sobre o navio.
O mastro
Desconfio de quem diz que sua empresa “tem estratégia” e não consegue apontar o último cliente a quem disse não. Estratégia se vê na recusa, que custa dinheiro na hora e só se justifica mais tarde, quando o produto que restou é o que se queria construir. Já a recusa precisa ter sido pensada antes, com calma, por gente que ainda não estava ouvindo coisa nenhuma.
Na pintura de Draper, Ulisses tem os olhos arregalados e o corpo tenso contra as cordas, e os remadores seguem puxando o remo. O mais fiel da cena é o mastro, que continua onde o puseram.
Fonte: First Round Review, com Nate Stewart, “How Product Strategy Fails in the Real World: What to Avoid When Building Highly-Technical Products”, 26 de setembro de 2022.
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HOMERO. Odisseia, canto XII. Circe instrui Ulisses sobre as sereias; o herói, atado ao mastro, ordena aos companheiros, de ouvidos tapados com cera, que o prendam com mais força se pedir para ser solto. ↩
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A entrevista é resumida pela equipe da First Round Review a partir da participação de Nate Stewart no podcast In Depth, da própria First Round. Todas as citações de Stewart neste ensaio são traduções minhas do inglês. Os números (100 ou 200 mil dólares; cinco ou seis compromissos em cinco anos) vêm do texto. ↩
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